“Governo assenta em duas coisas; refrear e enganar” diz Fernando Pessoa “A praça é do povo! como o céu é do condor”. É o antro onde a liberdade cria águias em seu calor. Senhor, pois quereis a praça? Desgraçada a população! Só tem a rua de seu... Ninguém vós rouba os castelos, Tende palácios tão belos... Deixai a terra ao Anteu. Mas embalde...que o direito Não é pasto de punhal Nem a patas de cavalo Se faz um crime legal... Ah! não há muitos Setembros! Da plebe doem-se os membros No chicote do poder, E o momento é malfadado Quando o povo ensanguentado Diz: já não posso sofrer. Castro Alves (1847-1871) Começam a rarear as inaugurações fulgurantes; já não se vê o vinho seco e a espetada em doses avulsas. A democracia madeirense elegeu, por décadas, um líder querido que, segundo nos anunciou, em breve se despede. Na festa, em Dezembro próximo, não faltará uma queima de artifício de precisamente 1.046.679,48 € para encher de cor, barulho e fumo a festa da despedida. Nessa noite os sem-abrigo da cidade do Funchal serão uns entre tantos, sem nada a celebrar e, quem sabe, incomodados com a invasão da “sua” nocturna propriedade. A recém inaugurada Praça do Povo estará cheia de cor, alegria, promessas de amor, votos de prosperidade numa Babel de sentimentos. Sob as lajes e os detritos de um temporal (porque a memória e a história não podem ser apagadas) muitos recordarão a tragédia de um dia de Fevereiro que parece já esquecido, a menos que a Natureza dê sinal de vida e no-lo recorde. Na praça 20 de Fevereiro! “O governo assenta em duas coisas; refrear e enganar” diz Fernando Pessoa no seu desassossego lúcido. Por cá engana-se sem refrear. As últimas notícias são férteis quer em providentes proponentes a queridos líderes quer em actos de alçada judicial. É um massacre noticioso e quotidiano de personagens que depressa esqueceram os trabalhos ciclópicos destas décadas e surgem hoje, como pitonisas, com carradas de soluções e projectos sistematizados, fadados a usar as moradias dos antecessores, com os mesmos vícios, as mesmas mobílias. A praça enchesse-se sem o preito de uma sagração ou uma vontade una de mudança que abale as cenas carnavalescas com que somos brindados e convidados, sem opção de voluntarismo, a contribuir. À beira mar sabe bem a brisa, o horizonte desconhecido prenhe de luz. Velhos e novos desfrutam o sol, o cheiro aromático de ervas, a novidade do espaço, a silhueta dos navios e o beijo violento do oceano; o chão frio, branco, irregular em tudo, atrai a multidão em festa. E que um poeta não lembre, esquecendo o povo em festa, o som da praça vazia. Maria Teresa Góis

“Governo assenta em duas coisas; refrear e enganar” diz Fernando Pessoa

“A praça é do povo! como o céu é do condor”. É o antro onde a liberdade cria águias em seu calor. Senhor, pois quereis a praça? Desgraçada a população! Só tem a rua de seu... Ninguém vós rouba os castelos, Tende palácios tão belos... Deixai a terra ao Anteu. Mas embalde...que o direito Não é pasto de punhal Nem a patas de cavalo Se faz um crime legal... Ah! não há muitos Setembros! Da plebe doem-se os membros No chicote do poder, E o momento é malfadado Quando o povo ensanguentado Diz: já não posso sofrer. Castro Alves (1847-1871) Começam a rarear as inaugurações fulgurantes; já não se vê o vinho seco e a espetada em doses avulsas. A democracia madeirense elegeu, por décadas, um líder querido que, segundo nos anunciou, em breve se despede. Na festa, em Dezembro próximo, não faltará uma queima de artifício de precisamente 1.046.679,48 € para encher de cor, barulho e fumo a festa da despedida. Nessa noite os sem-abrigo da cidade do Funchal serão uns entre tantos, sem nada a celebrar e, quem sabe, incomodados com a invasão da “sua” nocturna propriedade. A recém inaugurada Praça do Povo estará cheia de cor, alegria, promessas de amor, votos de prosperidade numa Babel de sentimentos. Sob as lajes e os detritos de um temporal (porque a memória e a história não podem ser apagadas) muitos recordarão a tragédia de um dia de Fevereiro que parece já esquecido, a menos que a Natureza dê sinal de vida e no-lo recorde. Na praça 20 de Fevereiro! “O governo assenta em duas coisas; refrear e enganar” diz Fernando Pessoa no seu desassossego lúcido. Por cá engana-se sem refrear. As últimas notícias são férteis quer em providentes proponentes a queridos líderes quer em actos de alçada judicial. É um massacre noticioso e quotidiano de personagens que depressa esqueceram os trabalhos ciclópicos destas décadas e surgem hoje, como pitonisas, com carradas de soluções e projectos sistematizados, fadados a usar as moradias dos antecessores, com os mesmos vícios, as mesmas mobílias. A praça enchesse-se sem o preito de uma sagração ou uma vontade una de mudança que abale as cenas carnavalescas com que somos brindados e convidados, sem opção de voluntarismo, a contribuir. À beira mar sabe bem a brisa, o horizonte desconhecido prenhe de luz. Velhos e novos desfrutam o sol, o cheiro aromático de ervas, a novidade do espaço, a silhueta dos navios e o beijo violento do oceano; o chão frio, branco, irregular em tudo, atrai a multidão em festa. E que um poeta não lembre, esquecendo o povo em festa, o som da praça vazia.

Maria Teresa Góis