Um dos riscos da chamada ‘evolução na continuidade’ é reduzir a evolução apenas à continuidade. É deixar andar o que andava, bem ou mal, introduzindo uma ligeira roupagem nova. No fundo, é deixar quase tudo como está. E é isso que temo que possa acontecer depois de um longo e aparentemente doloroso processo de renovação no PSD da Madeira. Temo que na voragem dos dias, na lógica das cedências e sob o peso das influências de aparelhos habituados a jogar em tabuleiros estreitos, todo este processo seja apenas mais um capítulo daquele pesado livro que nos vem sendo dado a ler desde os primórdios da autonomia. O que seria uma pena. Aos militantes social-democratas madeirenses foi dada, finalmente, a hipótese de mudar. Não apenas o líder, que sai completamente desgastado e empurrado até pelos seus, mas também na prática política, no modelo de desenvolvimento, no conteúdo das coisas mais do que na forma. Seria uma oportunidade histórica, a de renovar efectivamente. Seria, mas não tenho tanta certeza de que vá ser. O receio de que a agenda política regional continue a marcar passo não se prende tanto com os propósitos de alguns candidatos à liderança. Tem mais a ver com as influências, as cedências e o xadrez político que começa a desenhar-se. É que, de um momento para o outro, aqueles que passaram anos e anos completamente comprometidos com o jardinismo são os primeiros a dar o salto para a balsa da oposição interna. E, entre esses, o que causa maior estranheza é ver dirigentes associados à máquina que todos querem combater a assumir agora lugares cimeiros entre os combatentes. É uma posição dúbia, a de defesa e atacante ao mesmo tempo. E politicamente perigosa porque revela a permissividade de uma renovação que dá boleia à continuidade. E o mais estranho: fazem-se passar todos por distraídos. Ora, como muito bem dizia Edgar Silva em entrevista recente ao DIÁRIO, o pior que nos pode acontecer é encetar o que será vendido como um novo capítulo político, marcado pela marca jardinista mas sem Jardim. Começo a admitir que isso pode acontecer. A julgar pelos nomes que se conhecem, com excepção daquelas escolhas naturais e óbvias, notam-se cedências de todos aos mesmos de sempre. Aos que dominaram com Jardim, mesmo que sem dar tanto nas vistas. Aos que incentivaram ao caminho onde chegámos. No fundo, ao aparelho de sempre. E temos agora a curiosa situação em que os candidatos se assumem ferozes críticos do modelo desenhado por Jardim e Jaime Ramos, mas aceitam nas suas fileiras nomes que indirectamente ‘são’ Jardim e Jaime Ramos. É o jardinismo no seu pior. Eles estão entre vós, caros candidatos à renovação do PSD-M. Eles são alguns dos mais finos herdeiros do velho jardinismo que promete ficar por aí, como fantasma de quem ficar. E o estranho é perceber que a contabilidade partidária obriga quem vier a seguir a aceitar esta espécie de tutores. É pena.