Será que o turismo foi a opção de desenvolvimento mais adequada a Porto Santo? Li a notícia supra no jornal PÙBLICO de 3 de Outubro passado e atrevo-me a dizer que a intenção seria boa certamente mas o resultado pode ser perverso. De facto, penalizar ainda mais empresas que já têm dificuldades em operar todo o ano por causa de uma ocupação sazonal que as afecta não me parece boa ideia. Porquê? A sazonalidade aqui, tal como num «resort» de neve, não é uma escolha dos empresários, é uma fatalidade de um destino dependente de um único recurso turístico (sazonal), no primeiro caso (P.Santo), a praia, no segundo (estância de neve), a neve, que condiciona, neste caso, a prática de um desporto nela baseado. Mas, dir-se-á, o P.Santo não tem outras atracções, outros motivos de interesse? Sim, talvez, mas, como complementos (golfe, equitação, desportos náuticos, etc.) de um recurso principal (sol e mar) e, ainda assim, não garantido (o sol). É certo que o P.Santo dispõe de uma praia magnífica, com areia única e uma temperatura da água do mar quase tropical. Mas, isso só não chega, onde está a história, o património, a gastronomia, o núcleo urbano com história e dimensão para justificar uma estada de uma semana ou mesmo de um «short break»? Recuando no tempo será que o turismo foi a opção de desenvolvimento mais adequada a P.Santo? Houve, a seu tempo, algum planeamento estratégico nesse sentido ou resultou apenas da apetência e hábito dos madeirenses em irem gozar umas férias de verão num local próximo com uma praia que não dispunham, na sua Ilha? Mas, se assim for, este fenómeno não é necessariamente globalizável, ou seja, o P.Santo pode competir com destinos semelhantes com «turismo todo o ano», como é Maiorca ou a maior parte das Ilhas Canárias, na atracção de mercados de sol e praia? O problema, dir-se-á também, é que temos estruturas hoteleiras montadas e há pessoas por ocupar, mas, quando se pensa em destinos de «sol e mar» que funcionam é preciso não esquecer que há normalmente grandes investimentos de operadores turísticos e de transporte aéreo nesses destinos (ex: ilha da Boavista, em Cabo Verde) que querem ver o seu retorno, e para tal criam um «ambiente» quase artificial mas que gera muita animação, muito entretenimento, para «passar e ocupar o tempo» em termos de turismo activo e de lazer traduzido em altos níveis de sociabilidade entre os turistas. O Porto Santo tem essas características? Tenho as minhas dúvidas… Então ficamos de braços cruzados à espera que chegue o Verão? Não, mas, para isso, é preciso que o Turismo da Madeira integre o Porto santo na sua estratégia de marketing, designadamente a parte da promoção, e faça realçar os aspectos distintivos ou complementares que o tornam único no destino Madeira e que os operadores se interessem pela dita operação anual, mesmo que para isso tenha de haver significativo investimento público, para compensar (e não penalizar) o risco da operação continuada, por falta de procura. Isso é feito? Temo que não. Sendo assim, e atendendo aos preços usualmente praticados (muito esmagados no destino por imposição dos compradores) é, diria, injusto, exigir aos empresários «aventureiros» que mantenham custos fixos das unidades em funcionamento sem a contrapartida da ocupação, a preços justos. Por outro lado, há que pensar se há outras alternativas possíveis, fora do turismo, como seja uma agricultura muito especializada (primores, como a uva de P.Santo?) e/ em serviços de elevado valor acrescentado, exportáveis, como sejam projectos ou actividades na área de informação e do conhecimento, devidamente ponderados e apoiados. E, mesmo na área do turismo, há que ver se estamos a apostar nos segmentos certos a potenciar (wellness, talassoterapia, outros?). Nuno Jardim Fernandes
Será que o turismo foi a opção de desenvolvimento mais adequada a Porto Santo?
Li a notícia supra no jornal PÙBLICO de 3 de Outubro passado e atrevo-me a dizer que a intenção seria boa certamente mas o resultado pode ser perverso. De facto, penalizar ainda mais empresas que já têm dificuldades em operar todo o ano por causa de uma ocupação sazonal que as afecta não me parece boa ideia. Porquê? A sazonalidade aqui, tal como num «resort» de neve, não é uma escolha dos empresários, é uma fatalidade de um destino dependente de um único recurso turístico (sazonal), no primeiro caso (P.Santo), a praia, no segundo (estância de neve), a neve, que condiciona, neste caso, a prática de um desporto nela baseado.
Mas, dir-se-á, o P.Santo não tem outras atracções, outros motivos de interesse? Sim, talvez, mas, como complementos (golfe, equitação, desportos náuticos, etc.) de um recurso principal (sol e mar) e, ainda assim, não garantido (o sol). É certo que o P.Santo dispõe de uma praia magnífica, com areia única e uma temperatura da água do mar quase tropical. Mas, isso só não chega, onde está a história, o património, a gastronomia, o núcleo urbano com história e dimensão para justificar uma estada de uma semana ou mesmo de um «short break»?
Recuando no tempo será que o turismo foi a opção de desenvolvimento mais adequada a P.Santo? Houve, a seu tempo, algum planeamento estratégico nesse sentido ou resultou apenas da apetência e hábito dos madeirenses em irem gozar umas férias de verão num local próximo com uma praia que não dispunham, na sua Ilha? Mas, se assim for, este fenómeno não é necessariamente globalizável, ou seja, o P.Santo pode competir com destinos semelhantes com «turismo todo o ano», como é Maiorca ou a maior parte das Ilhas Canárias, na atracção de mercados de sol e praia?
O problema, dir-se-á também, é que temos estruturas hoteleiras montadas e há pessoas por ocupar, mas, quando se pensa em destinos de «sol e mar» que funcionam é preciso não esquecer que há normalmente grandes investimentos de operadores turísticos e de transporte aéreo nesses destinos (ex: ilha da Boavista, em Cabo Verde) que querem ver o seu retorno, e para tal criam um «ambiente» quase artificial mas que gera muita animação, muito entretenimento, para «passar e ocupar o tempo» em termos de turismo activo e de lazer traduzido em altos níveis de sociabilidade entre os turistas. O Porto Santo tem essas características? Tenho as minhas dúvidas…
Então ficamos de braços cruzados à espera que chegue o Verão? Não, mas, para isso, é preciso que o Turismo da Madeira integre o Porto santo na sua estratégia de marketing, designadamente a parte da promoção, e faça realçar os aspectos distintivos ou complementares que o tornam único no destino Madeira e que os operadores se interessem pela dita operação anual, mesmo que para isso tenha de haver significativo investimento público, para compensar (e não penalizar) o risco da operação continuada, por falta de procura. Isso é feito?
Temo que não.
Sendo assim, e atendendo aos preços usualmente praticados (muito esmagados no destino por imposição dos compradores) é, diria, injusto, exigir aos empresários «aventureiros» que mantenham custos fixos das unidades em funcionamento sem a contrapartida da ocupação, a preços justos.
Por outro lado, há que pensar se há outras alternativas possíveis, fora do turismo, como seja uma agricultura muito especializada (primores, como a uva de P.Santo?) e/ em serviços de elevado valor acrescentado, exportáveis, como sejam projectos ou actividades na área de informação e do conhecimento, devidamente ponderados e apoiados. E, mesmo na área do turismo, há que ver se estamos a apostar nos segmentos certos a potenciar (wellness, talassoterapia, outros?).
Nuno Jardim Fernandes