O Plano de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF) foi infelizmente um mal necessário. Fez-nos cair na realidade. Fez-nos acordar para um tempo em que as vacas gordas já tinham sido. Trouxe-nos uma inversão de rumo brutal e uma factura muito pesada pelo endividamento excessivo que contraímos. Fizemos a cama em que nos deitamos. Tivemos que nos sujeitar às imposições dos nossos credores, representados por uma República falida e ela própria nas mãos dos credores de que a tróica era a face. Tal como a República virou uma espécie de protectorado da União Europeia, a Madeira transformou-se em algo de semelhante face à República.
Tal como a soberania da República, a nossa autonomia política ficou em suspenso, drasticamente limitada. Quando não nos sabemos governar vêm terceiros para o fazer. Com a saída da tróica e após um duríssimo caminho das pedras a República recuperou alguma da soberania perdida, e tenta agora andar por si só, apesar dos riscos e das ameaças que persistem. A Madeira ainda trilha o caminho de uma brutal austeridade com o propósito de, não só virarmos a página do PAEF e destes tempos de chumbo que dele resultarem, mas também porque urge recuperar a autonomia perdida.
A austeridade na Madeira assumiu ainda um nível mais intenso. Para além dos efeitos do Memorando de Entendimento celebrado com a tróica, temos aguentado com os efeitos do PAEF. Na verdade, estima-se que o ajustamento orçamental na Madeira (incremento de receitas através do aumento da carga fiscal e cortes na despesa pública) esteja a ser bem superior ao verificado na República (4% do PIB na República para quase 8% do PIB na Madeira). Desemprego em níveis nunca antes vistos, recessão económica, aumento da pobreza, emigração e enorme aumento dos impostos foram as facetas mais visíveis da austeridade a que nos tivemos que submeter. E sem que tivéssemos tido a sensibilidade social para enquanto Partido e enquanto Governo termos feito acompanhar a austeridade com um sentido ético: uma austeridade que salvaguardasse os mais desfavorecidos, que procedesse a uma distribuição igualitária dos sacrifícios e que fizesse com que toda a despesa pública estivesse em coerência com as dificuldades que sãos sentidas pela sociedade.
Agora espero que ao menos tenhamos aprendido a lição e que tudo façamos para que uma situação assim, não se venha a repetir no futuro. Custa-me muito a entender que apenas no espaço de uma geração tenhamos estado enquanto País por três vezes à beira da bancarrota.
Muita razão tinha Bernard Shaw quando perguntava o que é que aprendemos com a História e logo de seguida dava a resposta: que nada aprendemos com a História. Não obstante, quero acreditar que agora possa ser diferente. E é com este espírito que temos de perspectivar os caminhos de esperança, a percorrer logo que nos libertemos do PAEF. Porque estes caminhos são possíveis e estão ao nosso alcance. É o que farei no próximo artigo.
Sérgio Marques