De sapatos e com bola de plástico, quem não se lembra do futebol de rua, o genuíno. Muito antes das sapatilhas, dos “cautchus”, dos pavilhões e dos sintéticos? Dos dedos esfolados e calças rotas nos joelhos? Foi assim que fiz as minhas primeiras futeboladas. Geralmente cada um de nós tinha um apelido. Vem isto a propósito, do campeonato “pé de chinelo” que se “joga” na campanha à liderança de uma certa agremiação da nossa rua. Seis magníficos já estão em campo. O primeiro a chegar à rua, o “pintas”, joga com estilo, mas a brilhantina e os olhinhos bonitinhos, parecem não ser suficientes para ficar com a braçadeira de capitão. Precisa de ser mais tecnicista para virar de vez o jogo a seu favor. O “jeitoso” chegou depois e logo pela mão do árbitro. Parecia ter o jogo controlado, mas a colagem ao homem do apito tirou-lhe velocidade para entrar pela direita, rente à parede, em direcção ao golo. De mansinho surgiu no campo empedrado, o “bebé chorão”. Sempre de polegar na boca, queixa-se e chora por uma oportunidade no meio campo, mas o resto da maralha, empurra-o para a baliza. Lá para atrás, para não atrapalhar. O mais alto, “o canelas”, entra directamente para ponta de lança. A altura e a experiência na área parecem dar-lhe alguma vantagem. Tem o apoio da claque a quem dá chupa-chupas, mas tem um adversário de peso dentro da própria equipa, o “espalha-brasas” que sempre jogou com o grupo, mas arma-se em Estrangeiro e garante que é o grande reforço da temporada. Promete rebentar com as traves das balizas, nas incursões e remates que fizer a torto e a direito. Para completar o sexteto, a surpresa…o “fala-barato”. Aquele que tenta enganar tudo e todos, o vendedor da banha da cobra. Para ele, marcar golos na baliza adversária ou na sua própria é a mesma coisa. O que interessa é jogar! Bom, a equipa está feita, mas há sempre a possibilidade de aparecer mais um jogador à última da hora. Para já, parece-me um “seis”“ egoísta. Cada um joga para si, sob o olhar atento de um árbitro, o “ave rara”, que apita e dita as regras, mas chama a polícia, quando os jogadores fazem orelhas moucas às suas apitadelas. Por ele, expulsava toda a equipa, para ficar sozinho em campo! Há cada coincidência entre o futebol de rua e o pé de chinelo!!

Mário Gouveia Jornalista