Obrigado a renegar perante o Tribunal Romano do Santo Oficio a sua teoria heliocêntrica de que a Terra se movia em torno do Sol, Galileu terá evitado seguir o caminho dramático de Giordano Bruno, também um heliocentrista que foi queimado nas fogueiras da Inquisição. Acusado de desobediência ao poder por ignorância, Galileu teve de abjurar e assim conseguiu ser “apenas” condenado a prisão perpétua e mais tarde, por intervenção do seu protetor o Grão-Duque de Toscana, viver em prisão domiciliaria. Verdade ou lenda, Galileu ao tomar conhecimento da sentença que o poupara à morte mas que o proibia de defender ou divulgar a sua teoria, terá murmurado ao ouvido de Roberto Bellamino que presidia ao Tribunal do Santo Oficio : “ ….. e pur si muove!” (“ … e no entanto ela move-se!”). Com esta provocação em voz seciada, Galileu terá procurado proteger alguma dignidade após ter renunciado à sua verdade por medo de perder a vida. Nem todos temos que ter a inteligência de Galileu que entre a coragem e o medo, escolheu segundo a lenda, a virtude de afrontar o medo com uma coragem quase secreta, subentendida, feita de uma voz seciada e ao ouvido do seu carrasco. Galileu entendeu que nem todos temos que ser heróis ou mártires na defesa das nossas convicções para ficarmos na historia dos grandes homens. Mas também entendeu que, mesmo em voz baixa, temos que manter alguma coerência que sustente a nossa dignidade e garanta a nossa credibilidade. Coerência entre aquilo que hoje dizemos em voz alta e o contrario que ontem afirmámos ou calámos. Coerência entre aquilo que ontem defendemos como a decisão certa e o que hoje atacamos como sendo a decisão errada. Coerência entre a lealdade a compromissos passados e o novo encantamento que toma conta de nós quando outras razões ou paixões surgem no horizonte. A Inquisição há muito deixou de fazer fogueiras mas continua a haver gente que numa visão aristotélica pensa que é o centro do universo e que os outros, são pequenos e insignificantes corpos celestes que orbitam em círculos concêntricos em seu redor. Gente parada no tempo e que pensa ser ainda herdeira do poder absoluto de Roberto Bellamino, presidente do Tribunal do Santo Oficio e pronta a condenar ao fogo purificador quem defender que tal como a Terra, a sociedade ….. move-se! E nesse movimento uniformemente acelerado da sociedade, não foi preciso Galileu descer à terra para, a 2 de Novembro de 2012 aqui na Madeira e na rua dos Netos, a política regional se “mover”! Bastou que alguém ao tomar conhecimento da sentença eminente que o proibia de defender ou divulgar a sua “teoria”, tenha dito em voz seciada ao ouvido do presidente Bellamino: “…. e no entanto o poder político move-se!“ E todos estamos a ver ……. “moveu-se”! Em 1846 a igreja católica reviu as suas posições em confronto com Galileu, mas só em 2000 o Papa João Paulo II pediu formalmente desculpa pela prepotência de uma Igreja que em 1633, ainda mergulhada num obscurantismo medieval, obrigara Galileu Galilei a renegar o seu pensamento. Que não tenhamos que esperar quatro séculos para que um pedido formal de desculpa reponha a dignidade de quem um dia, nem herói nem mártir, teve de renegar durante quase quarenta anos o seu pensamento.

Manuel de Brito