A impunidade que grassa nos mais variados âmbitos e contextos é um potencial foco de disfuncionalidade, nomeadamente de desregulação social.

A noção de impunidade que muitos sentem e interiorizam, normalmente expressa-se entre dois extremos: 1- Os que, pela calada, de forma dissimulada, lá vão fazendo as mais variadas tropelias; 2- Os que, de forma despudorada, fazem gala em exibir que não estão sujeitos às mesmas regras que o comum dos mortais, tudo podendo fazer e não tendo que assumir as consequências das suas “infrações”.

Todos conhecemos casos destes, uns mais mediáticos, normalmente com implicações diretas no nosso bem-estar coletivo, outros que atingem especificamente pequenos grupos ou alguma pessoa em particular. A sensação de injustiça que se sente esbarra, muitas vezes, num sentimento de impotência para alterar o estado de coisas e somos tentados a baixar os braços, a deixar andar como se tudo fosse uma inevitabilidade. A partir de certo ponto perde-se, inclusive, a capacidade de indignação. Ora, quando isso acontece, podemos estar muito próximo de entrar numa espécie de “modo vegetativo”.

Os níveis de responsabilidade da actual situação certamente são distintos mas, de uma forma ou de outra, por acção ou por omissão, todos nós, voluntária ou involuntariamente, não só temos responsabilidades na manutenção deste estado de coisas como, enquanto educadores (na escola, na universidade, no clube, na comunicação social, na família, no grupo de amigos …), também alimentamos e ajudamos a criar o “monstro”.

Não pode valer tudo desde que o “árbitro/professor/polícia/pai/vizinho” não veja ou não possa fazer nada. Copianço nas avaliações, puxões e simulações numa competição, falcatrua nos negócios e nos concursos, manipulação da informação, maledicência, etc., não podem ser estimulados e, muitas vezes, até ensinados e “treinados”. Ou melhor, poder podem, mas a punição (inclusive a moral) tem de ser suficientemente dissuasora para, no mínimo, fazer pensar duas vezes se vale a pena correr o risco.

Mas não basta que as pessoas pensem duas vezes antes de fazer algo, é importante que as decisões que tomem não sejam em função do medo de eventuais punições, mas por terem uma capacidade de análise e sentido crítico alicerçado em bases culturais sólidas onde a ética, a deontologia e a moral não são apenas adornos de poetas …

Com a manutenção do processo pedagógico dominante, por exemplo, no sistema educativo (do pré-escolar à universidade) e no sistema desportivo (da iniciação ao alto rendimento), será difícil sair deste espartilho de impunidades, injustiças e impotências. Contudo, cada um no seu âmbito de atuação pode ajudar a fazer a diferença, assim saiba e queira… Entretanto, sempre se pode ter a fraca consolação que tudo tem um tempo e que, no final, ninguém escapa impune ao inexorável ciclo da vida. O problema é que enquanto isso não acontece lá vão infernizando a vida dos outros…

Hélder Lopes