Portugal perto de fazer 900 anos precisa de uma agenda própria assente na sua identidade secular Um dos meus personagens históricos favoritos Winston Churchill disse um dia que “Diplomacia é a arte de dizer às pessoas para irem para o inferno de uma forma que eles ainda perguntam o caminho”. Vem isto a propósito dos episódios diplomáticos que se têm acumulado recentemente sobre o nosso país. A entrada da Guiné Equatorial na CPLP. A expulsão dos magistrados de Timor. Tudo isto acontece porque nos deixamos cair numa miserável atitude de subserviência e desorientação que é inaceitável para um país que é soberano desde 1128. O facto de estarmos a passar mais uma crise, de termos dificuldades e precisarmos de ajuda externa, não justifica esta atitude. As circunstâncias difíceis não justificam a falta de dignidade. E este é o problema de termos responsáveis políticos sem qualidade. Justificam o seu comportamento ordinário com as circunstâncias. Como se a dignidade fosse dissociável da identidade e dependente das circunstâncias. Somos um pais soberano desde 1128 e uma nação desde 1139, ou seja, conforme as interpretações fazemos 900 anos em 2028 ou 2039. Temos uma única etnia e uma das línguas mais faladas do mundo, as fronteiras mais estáveis da Europa e uma história que determinou o que o mundo é hoje. Um país como o nosso não pode perder a dignidade sob pena de ficar refém das circunstâncias e no limite perder a sua própria identidade. Estas três coisas estão relacionadas e formam muitas vezes um ciclo complicado de romper. As circunstâncias nunca explicam a falta de dignidade. Não é por estarmos numa crise profunda que podemos aceitar ser tratados desta forma, como pessoas e como estado nação. Pelo contrário é precisamente por estarmos numa crise que devemos defender a nossa dignidade como princípio máximo do estado. Em primeiro lugar a dignidade das pessoas que têm sido as principais vitimas de tudo o que nos tem acontecido. Um país que trata mal os velhos, os reformados, os mais experientes é um pais ingrato e sem futuro porque é um país que não reconhece a sua identidade. Um país que se envergonha da sua história recente ou longínqua é um país sem futuro. Um país que nunca será capaz de compreender a necessidade de políticas de longo prazo porque acha que tudo se resolve pela contabilidade das circunstâncias. Os comentários que a Srª Merkel faz quando lhe apetece sobre Portugal são disso um exemplo claro. O que esta senhora disse recentemente sobre o excesso de licenciados em Portugal é muito grave. Não porque seja uma mentira estatística (que a Srª arruma considerando as análises da OCDE absurdas) mas porque é uma mentira muito perigosa. Portugal não tem excesso de licenciados, pelo contrário tem muito menos licenciados do que deveria ter e isso implica que tem que continuar a expandir a sua base de formação a todos os níveis incluindo também o ensino vocacional. O problema de países como Portugal, Espanha ou Irlanda não é o excesso de licenciados é a falta de condições para absorver e integrar as pessoas qualificadas no mercado. Aliás esses licenciados, em particular de engenharia, são muito bem recebidos pelas empresas da Srª Merkel apesar de serem os nossos filhos formados com os nossos impostos que vão contribuir para enriquecer os países do Norte da Europa. Países como a Noruega que estão a recrutar engenheiros portugueses para produzir equipamentos e infraestruturas que depois vendem a Portugal para explorar os nossos próprios recursos (falo do exemplo da industria naval que deveria ser estratégica para Portugal). O que falta a Portugal são condições de contexto que permitam que os nossos licenciados tenham condições para desenvolverem carreiras e aplicarem os seus conhecimentos de forma produtiva tal como fazem e muito bem quando emigram. Isso exige uma estratégia em torno das poucas grande empresas e dos recursos que temos. O que está a acontecer com empresas como a Portugal Telecom, vendidas a interesses de ilusionistas financeiros, é criminoso porque limita as tais condições de contexto. As nossas empresas estão todas transformadas em cadeias de retalho e com isso a matar toda a capacidade produtiva e inventiva. Estas mentiras são perigosas porque estão a desmotivar e a desorientar os jovens que já perderam a esperança no seu país. Portugal perto de fazer 900 anos precisa de uma agenda própria assente na sua identidade secular. Uma agenda que nos permita recuperar a dignidade e vencer as circunstâncias. Neste contexto uma resposta forte às humilhações diplomáticas tem um efeito mobilizador. A Srª Merkel merecia uma resposta ao nível de um Winston Churchill que, quando Lady Astor lhe disse “Winston, se eu fosse a sua mulher envenenava o seu café”, respondeu “Nancy, se eu fosse seu marido bebia o café”. Infelizmente a ironia de Churchill não se aplica ao nosso caso. A Srª Merkel com as suas políticas tem envenenado o nosso café, manda-nos para o inferno e nós ainda perguntamos qual é o melhor caminho. * Professor Universitário Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal Nuno Nunes *

Portugal perto de fazer 900 anos precisa de uma agenda própria assente na sua identidade secular

Um dos meus personagens históricos favoritos Winston Churchill disse um dia que “Diplomacia é a arte de dizer às pessoas para irem para o inferno de uma forma que eles ainda perguntam o caminho”. Vem isto a propósito dos episódios diplomáticos que se têm acumulado recentemente sobre o nosso país. A entrada da Guiné Equatorial na CPLP. A expulsão dos magistrados de Timor. Tudo isto acontece porque nos deixamos cair numa miserável atitude de subserviência e desorientação que é inaceitável para um país que é soberano desde 1128.

O facto de estarmos a passar mais uma crise, de termos dificuldades e precisarmos de ajuda externa, não justifica esta atitude. As circunstâncias difíceis não justificam a falta de dignidade. E este é o problema de termos responsáveis políticos sem qualidade. Justificam o seu comportamento ordinário com as circunstâncias. Como se a dignidade fosse dissociável da identidade e dependente das circunstâncias. Somos um pais soberano desde 1128 e uma nação desde 1139, ou seja, conforme as interpretações fazemos 900 anos em 2028 ou 2039. Temos uma única etnia e uma das línguas mais faladas do mundo, as fronteiras mais estáveis da Europa e uma história que determinou o que o mundo é hoje.

Um país como o nosso não pode perder a dignidade sob pena de ficar refém das circunstâncias e no limite perder a sua própria identidade. Estas três coisas estão relacionadas e formam muitas vezes um ciclo complicado de romper. As circunstâncias nunca explicam a falta de dignidade. Não é por estarmos numa crise profunda que podemos aceitar ser tratados desta forma, como pessoas e como estado nação. Pelo contrário é precisamente por estarmos numa crise que devemos defender a nossa dignidade como princípio máximo do estado. Em primeiro lugar a dignidade das pessoas que têm sido as principais vitimas de tudo o que nos tem acontecido. Um país que trata mal os velhos, os reformados, os mais experientes é um pais ingrato e sem futuro porque é um país que não reconhece a sua identidade. Um país que se envergonha da sua história recente ou longínqua é um país sem futuro. Um país que nunca será capaz de compreender a necessidade de políticas de longo prazo porque acha que tudo se resolve pela contabilidade das circunstâncias.

Os comentários que a Srª Merkel faz quando lhe apetece sobre Portugal são disso um exemplo claro. O que esta senhora disse recentemente sobre o excesso de licenciados em Portugal é muito grave. Não porque seja uma mentira estatística (que a Srª arruma considerando as análises da OCDE absurdas) mas porque é uma mentira muito perigosa. Portugal não tem excesso de licenciados, pelo contrário tem muito menos licenciados do que deveria ter e isso implica que tem que continuar a expandir a sua base de formação a todos os níveis incluindo também o ensino vocacional. O problema de países como Portugal, Espanha ou Irlanda não é o excesso de licenciados é a falta de condições para absorver e integrar as pessoas qualificadas no mercado. Aliás esses licenciados, em particular de engenharia, são muito bem recebidos pelas empresas da Srª Merkel apesar de serem os nossos filhos formados com os nossos impostos que vão contribuir para enriquecer os países do Norte da Europa. Países como a Noruega que estão a recrutar engenheiros portugueses para produzir equipamentos e infraestruturas que depois vendem a Portugal para explorar os nossos próprios recursos (falo do exemplo da industria naval que deveria ser estratégica para Portugal). O que falta a Portugal são condições de contexto que permitam que os nossos licenciados tenham condições para desenvolverem carreiras e aplicarem os seus conhecimentos de forma produtiva tal como fazem e muito bem quando emigram. Isso exige uma estratégia em torno das poucas grande empresas e dos recursos que temos. O que está a acontecer com empresas como a Portugal Telecom, vendidas a interesses de ilusionistas financeiros, é criminoso porque limita as tais condições de contexto. As nossas empresas estão todas transformadas em cadeias de retalho e com isso a matar toda a capacidade produtiva e inventiva. Estas mentiras são perigosas porque estão a desmotivar e a desorientar os jovens que já perderam a esperança no seu país.

Portugal perto de fazer 900 anos precisa de uma agenda própria assente na sua identidade secular. Uma agenda que nos permita recuperar a dignidade e vencer as circunstâncias. Neste contexto uma resposta forte às humilhações diplomáticas tem um efeito mobilizador. A Srª Merkel merecia uma resposta ao nível de um Winston Churchill que, quando Lady Astor lhe disse “Winston, se eu fosse a sua mulher envenenava o seu café”, respondeu “Nancy, se eu fosse seu marido bebia o café”. Infelizmente a ironia de Churchill não se aplica ao nosso caso. A Srª Merkel com as suas políticas tem envenenado o nosso café, manda-nos para o inferno e nós ainda perguntamos qual é o melhor caminho.

* Professor Universitário Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal

Nuno Nunes *