Amaro Santos A pensar no meu Machico, fui para a cama com a pergunta do Diário de Notícias na cabeça - Que pode a Madeira ganhar com a nomeação para melhor destino insular do Mundo?

Acordei em sobressalto. Lembro-me de estar a sair do D. Pedro, hotel muito bem encaixado na baía e com uma vista magnífica sobre Machico. Fui seduzido pela paisagem e em vez de ir directamente para a praia amarela resolvi contornar o vale, a meia encosta. O sol acendia-se, e eu de mochila às costas pus-me a caminho.

Percorri alguns metros na Rua Eng. Santos Costa, entrei na Levada das Figueiras, contornei a Ribeira Seca na Levada dos Maroços, alcancei a Levada do Desembarcadouro no outro lado da encosta e três horas depois estava na praia. O sol insistia em me fazer companhia, e de toalha estendida naquele aconchego olímpico, com algum cansaço, adormeci. Lembro-me de estar a dizer ao sol: Neste percurso que acabamos de fazer está o passado e o futuro da Machico. O sol não me ligou meia, e eu arreliei-me. Presta atenção... Como viste, percorremos três levadas, com alguns pequenos desvios. Saímos no Sítio da Serra d`Agua para ver os dois moinhos devolutos que lá agoniam. Aquela irmandade merece respeito, o senhor Melim disse-me há dias que as peças estão todas lá e estava à espera de uma resposta da Câmara para serem recuperados. Representam um passado e com histórias escondidas. Depois passámos na oficina do ferreiro, ali tão perto. O Matateu trabalhava o ferro mergulhando no carvão e fogo que todos os jovens em idade escolar deveriam assistir. Voltámos á levada das Figueiras. Sentíamos o pulsar das pessoas nos seus afazeres que condicionam a vida e moldam a paisagem. Vai fazer os trabalhos da escola dizia uma mãe… Tudo tão próximo.

Chegámos às Furnas do Cavalum. Que mistério… Nunca houve um machiqueiro com coragem que explorasse isto. Parecem infinitas e com imenso potencial turístico. Há fundos europeus que podiam ajudar. Na estrada para os Maroços há tanta coisa de encantar, velhos moinhos, formações rochosas raras, um ribeiro que forma uma cascata meia escondida que podia ser facilmente aproveitado para formar várias cascatas num local mais visível a norte das Furnas, dando outro impacto à paisagem. As Fontes Vermelhas seria um lugar de culto à vida pela quantidade de água que brota dali…

Desviámos para a levada dos Maroços até ao Túnel do Caniçal onde ficamos surpreendidos pela quantidade de vales dentro do vale. Podíamos ir ao Miradouro do Pico do Facho de onde se pode avistar o Porto Santo como a aterragem dos aviões em Santa Cruz, mas optámos entrar na Levada do Desembarcadouro. As marcas dos fachos que evocam os tempos dos piratas ainda estão frescas. Em todo o percurso a paisagem é deslumbrante. Ali uma casa de colmo, a chaminé do antigo engenho, mais ao longe a Capela de S. Roque, a Igreja matriz, o Solar do Ribeirinho, … vai ser preciso um dia para ver os espaços religiosos e culturais… não são assim tão poucos. Na Trincheira veio-me à memória a Revolta da Madeira. Os nossos soltados combateram nestas montanhas e ali imaginei um memorial à coragem madeirense. Na rotunda do cais fiquei surpreendido com a construção de um monumento à descoberta da Madeira, afinal falta tão pouco para os 600 anos.

E terminado o percurso dou com a cara no belo monumento à lenda de Machim e Ana d´Árfet, mesmo atrás da praia… tinham acabado de inaugurar! Pensei na Capela dos Milagres, ali tão perto, para agradecer ao Senhor por este roteiro que podia atrair muitos turistas a Machico. Via turistas a caminhar e sair em vários pontos do percurso com os taxistas a trazê-los de volta, outros paravam para uma cerveja, outros ainda almoçavam nos restaurantes das redondezas, agricultores vendiam fruta… Os grupos maiores levavam um guia… as pessoas andavam contentes. De repente acordo com um estrondo… é a máquina a derrubar o primeiro moinho na Serra d`Agua e com ela todo o meu sonho começa a desmoronar-se. Já consciente, desabafei ao sol. Que responsáveis são estes que não querem ver o passado nem o futuro de Machico.