Estava num adro de uma das nossas igrejas, num Domingo, à espera do fim da missa, para poder fazer uma acção de campanha. Já não sei qual era a eleição. Não era só eu, mas lado a lado, os partidos ocupavam os locais de melhor propagação de som e de maior visibilidade. Enquanto se celebrava a missa cá fora, acotovelavam-se os candidatos procurando convencer quem fora da igreja, por aí se encontrava. Oiço, ao meu lado, um candidato a pedir apoio a uma popular que, sorrindo lhe dizia que sim e elogiava o seu protagonismo regional. Satisfeito parte para outro contacto, e a até então sorridente, já longe dos seus ouvidos, cerra os dentes e vocifera: Vais ter!
Fiquei estupefacto!
Há anos, dois meus amigos candidataram-se a um lugar de delegado sindical, um contra o outro. Um deles, pelos expressos apoios prometidos, em fase pré-eleitoral, convenceu-se que ainda ia ganhar. No dia da eleição decidiu votar em si próprio e quando abertas as urnas e se contam os votos, espanta-se com o resultado: só teve um voto! Entristecido, ainda ouviu um votante, batendo nas suas costas, lhe dizer “não merecias. Sabes que votei em ti!”.
O voto secreto, sendo um enorme trunfo de liberdade, por ser secreto, favorece este jogo de simulação em que muitos se especializaram. Ainda por cima joga com esta horrível característica do madeirense de não ser transparente. Pode dizer uma coisa e fazer outra. Legaliza o cinismo e dá azo a um certo bipolarismo político!
Pior, pode prometer-se um comportamento, ganhando proveitos e fazer outra coisa na descrição da decisão. Essa duplicidade pode dar lucro e ser mais proveitosa do que a hombridade e a verdade da conduta. Esta ronha é a defesa do medroso. É também a arma do graxista e do lambe-botas. É desleal porque permite concorrência de benesses entre situações desiguais. É sinuosa e charmosa para quem ouve o elogio, mas é traiçoeira e cruel para quem faz contas no final. Vive bem com Deus mas pactua com o Diabo! Tem a chuva na eira e o sol no nabal!
A ronha é também sinal de dependência e de esperteza. Uma sociedade onde se generaliza a ronha é uma sociedade de oportunistas ou de quem não gosta de assumir. A ronha é uma certa corrupção mas de quem não tem ou não usa o dinheiro.
Vem isto a propósito das assinaturas com que os candidatos instruíram as suas propostas à contenda de Dezembro, recentemente viabilizadas. Dizem-me que, se houvesse exclusividade de propositura, já tinham ultrapassado o número de militantes inscritos, pagantes ou não pagantes. Parece que esse foi um argumento de peso para os que levam a bandeira dando a ideia, aos que estão deste lado, que quem mais assinaturas tiver mais probabilidades tem de vencer. A disputa prévia converteu-se no número de subscritores. Com o peso das centenas à partida espera-se convencer e vencer. É uma polle position da grande corrida.
Lembrei-me de deixar escrito este conselho aos candidatos: contem com a ronha. Não se entusiasmem nem prometam. Não se convençam nem decidam antes do tempo. Agir sem contar com a ronha é espalhanço certo. Especialmente na política.
Fica o aviso. E não digam que vai daqui!
Ricardo Vieira