Nota: A quem lê os meus artigos habituais, notará a óbvia diferença na escrita e, em particular, na temática. Sem qualquer pretensão a ensaísta ou historiadora, abordo este tema ( a título excepcional ) que me é-me deveras interessante.

Na dupla relação ao saber, a mulher grega é uma figura curiosa. É um objecto apaixonante e um ser muito discreto, mas teoricamente exemplar. Enquanto objecto, a mulher aparece, antes de mais, A mulher, como essa coisa viva cujo advento no mundo deve ser inventado pelo mitológico, antes de se tornar um corpo a retalhar para os médicos e um figura social a enquadrar para os filósofos. Enquanto sujeito, aparece esporadicamente, mas de forma segura, à margem do exercício filosófico, médico ou literário, como excepção que vem confirmar a regra da exclusividade masculina no domínio intelectual. Mas torna-se por sua vez um sujeito exemplar de conhecimento quando a posição face ao saber é de conhecimento quando a posição face ao saber é concebida em termos de receptividade e de pesquisa hesitante mais do que de aquisição conquistadora de uma competência estabelecida. Quando Fílon de Alexandria distingue o intelecto masculino da sensação feminina, resume um aspecto importante da concepção grega da diferença sexual, que se encontra nas ideias de Plutarco sobre a verdade oracular ou nas de Platão sobre a maiêutica. Na impossibilidade de acederem realmente à educação, as mulheres encarnam no imaginário uma acessibilidade, uma permeabilidade quase sem resistência em relação à verdade, coerente com a sua vocação sexual de acolher, de tomar em si.

Empiricamente, raros são os saber-fazer valorizados, exigindo competência e perícia, atribuídos às mulheres: a tecelagem, assim como, na maior parte das sociedades tradicionais, a gestão da casa, o cuidar das crianças. Platão será o único a espantar-se e a indignar-se perante este paradoxo: a tarefa de educar cidadãos é confiada a seres que são, eles próprios, extremamente mal-educados - Platão, République, II, 377- .

Poetas, filósofos e médicos revestem o objecto-mulher de um discurso que, entre Homero ( século VIII antes de Cristo ) e Galeno ( século II), apresenta uma notável coerência. Se quiséssemos fazer a lista das obsessões do discurso culto, não iríamos muito longe. A mulher é passiva e, no melhor dos casos, inferior, em relação, claro está, ao padrão anatómico, fisiológico e psicológico, o homem. E é tudo! O que se disse e se escreveu no debate sobre o feminismo de Platão que, na República, concebe uma cidade onde as mulheres deveriam ser educadas, tal como os homens, menos bem feito. Assim, os médicos hipocráticos, prontos a reconhecer que cada indivíduo sexuado, macho ou fêmea, transporta uma semente idêntica e andrógina, afirmam que a parte feminina dessa substância seminal é em si mesma, por uma qualidade intrínseca, menos forte do que a parte masculina. Para já não falar de Aristóteles, para quem a inferioridade é sistemática, em todos os planos - anatomia, fisiologia, ética - , corolário de uma passividade metafísica. Esta certeza, esta adesão unânime à ideia de uma menor qualidade, de uma inadequação - lacuna, mutilação, incompletude - confere ao saber dos Gregos um desagradável sabor de acidez. Azedume do desprezo e, pior ainda, da condescendência que provoca outros maus humores nos historiadores que se voltam hoje para esses textos. Como não alternar apoplexia e acesso de bílis, como não se deixar invadir por ondas de raiva e lufadas de inveja?

O equilíbrio isonómico torna-se precário a partir do momento em que seguimos a injustiça dos raciocínios, a imbecilidade dos discursos, que se supõe serem o que de melhor se disse, se pensou, construiu ou reflectiu sobre o humano na tradição ocidental.

Renata Camacho