Com o inicio do ano letivo e a integração de novos alunos no sistema universitário, a questão dos transportes entre a ilha da Madeira e o continente português deixa-me sempre perplexa e angustiada.

Por mais que se diga que existem viagens baratas e que o que importa é estar atento e planear com antecedência, o que é facto é que esses conselhos não respondem às necessidades das pessoas com uma vida comum.

Não estou preocupada com aqueles que têm conseguido manter uma situação financeira estável que lhes permite deslocarem-se em fins de semana alargados ou períodos de férias para destinos à escolha, e que por isso conseguem facilmente planear viagens e assim usufruir de tarifas reduzidas. A minha atenção dirige-se para todos os outros que necessitam de se deslocar por situações várias ligadas à saúde e educação que, como sabemos, não surgem com prazos definidos.

A teoria dos governantes e companhias no que respeita à deslocação dos jovens universitários nomeadamente na possibilidade de planear viagens de inicio e fim de período de aulas, com férias incluídas, na prática, essencialmente nos dois primeiros anos, não corresponde de todo à realidade. Muitos jovens saem de casa pela primeira vez aos 17/18 anos para zonas do país completamente desconhecidas, sem referências. Vão iniciar uma vida completamente diferente com altos níveis de exigência, sem apoio familiar, nem a possibilidade de vir a casa aos fins de semana, ainda que nem todos, pelo menos alguns.

São várias as situações em que jovens e/ou seus pais vivem momentos de grande angústia e sofrimento por saudade e necessidade de estar mais próximo para auxiliar em momentos mais difíceis de ambas as partes. Muitas vezes, no limite, a impossibilidade de partilha da dor da separação provoca doença física ou mental.

Jovens que adoecem, deprimem, regressam a casa frustrados, desiludidos, magoados consigo próprios. Se uns ultrapassam a crise, mais facilmente, com o apoio da família e de um ou outro técnico de saúde, outros necessitam de um tempo de paragem na vida académica, de um retorno à família e de um acompanhamento mais específico para recuperarem confiança e assim se prepararem para de novo reiniciarem, à distância das famílias, os seus projectos de vida.

Salientando que, na grande maioria dos caso, falamos de jovens que integram o ensino universitário no país onde vivem, mantenho a minha posição de que é inadmissível não existir, no mínimo, condições especificas e favoráveis.

É do conhecimento comum que cada vez mais existem famílias que não conseguem suportar para além do básico (propinas, alimentação e habitação) duas viagens por ano. Esta impossibilidade implica que no Natal, período do ano em que as tarifas se encontram altíssimas, muitos jovens vão ficar sozinhos ou em casa de amigos cujas famílias os acolhem por amizade e solidariedade. Noutras situações, mais favoráveis, os jovens conseguem a viagem para passar o Natal mas regressam antes do final do ano pois assim conseguem tarifas mais económicas.

Quem tem possibilidades financeiras, cada vez menos, não se debate com este tipo de problemas e muitas vezes nem tem consciência desta realidade. Mas a maioria dos jovens madeirenses ou já nem coloca a hipótese de continuar os seus estudos ou integra os cursos existentes na universidade da madeira muitas vezes desfasados dos seus objectivos e mesmo das suas competências.

Afinal o que pretende a Região Autónoma da Madeira para a sua população jovem?

Quem define as políticas dos transportes aéreos devia repensar as estratégias actuais e redefini-las, no mínimo para as situações que assim o exigem.

Manuela Parente Psicóloga