Caro Passos, (desculpa o tom informal, mas o tema justifica) falhei. Numa altura em que queres pôr a país a reproduzir como coelhos, penso que poderei ter dado, sem querer, indicações em sentido contrário.

A Cátia e a Daniela ainda não têm filhos. E são claramente o target – eu podia dizer público-alvo mas sei que gostas deste neologismos estrangeiros que fazem de nós povo evoluído - que queres atingir com estas medidas pró-natalidade que andas a apregoar.

Acontece que na última vez que estiveram cá em casa para o que deveria ter sido um jantar de amigas à entrada do fim-de-semana fui incapaz de lhes mostrar as maravilhas da maternidade, em geral, e neste país em particular.

A minha mais nova (sempre quis escrever isto) estava com uma gastrenterite, apanhada no colégio que tenho de pagar, já que o Estado só lhe assegura vaga daqui a quatro anos quando entrar no pré-escolar. E eu, mesmo pertencendo àquela classe preguiçosa, tenho que trabalhar. Consegui esconder o cheiro de fraldas transbordantes, mediquei-a, alimentei-a e estava a dormir, serenamente, durante o nosso repasto. Acordou, porém, para uma performance digna daquela miúda que fez o Exorcista. Vomitou todas as partes da casa, inundando-a de um odor que parecia misturar queijo estragado com o de uma fábrica de papel.

Foi neste momento, entre a limpeza do espaço e do meu febril rebento, que percebi que dificilmente conquistaria a Cátia e a Daniela para este extraordinário e maravilhoso mundo. Não lhes contei as vezes que passámos pela Urgência do Hospital, ora com um, ora com outro nos últimos meses. Nem o dinheiro gasto em pediatra privado (que não é um luxo) nos últimos anos . O preço das fraldas e do leite. E das vacinas não comparticipadas que custam centenas de euros. Do subsídio pré-natal a que tinha direito, mas não recebi por uma burocracia qualquer inenarrável na Segurança Social. Não partilhei como foi devastante ter de optar por ter um filho no ensino privado e outro no público, como caminho único para aumentar o agregado, tendo em conta as reduções de ordenado sofridas, entre sobretaxas e outras coisas que sabes melhor que eu. Das corridas para a escola –ai-Jesus-que-está-na-hora-e-este-trânsito.

Naquele momento senti que tinha perdido a Cátia e a Daniela irremediavelmente. Elas precisavam de respirar. À porta ainda lhes disse: - Já sabem que as crianças agora contam para o IRS?. Mas acho que elas já tinham carregado no botão do elevador. Falhei, Passos, mas conto contigo para as fazeres mudar de ideias. Penso que deverias, porém, ter começado mais cedo nesta demanda por um país mais parideiro. Porque deve ser difícil para gente que perdeu emprego, que nunca passou de estagiário, que vive na casa dos pais ainda, agora ter filhos. Mas não desistas. Se convenceres a Cátia e a Daniela, ganhar eleições depois de esmifrar os portugueses será, olha, uma brincadeira de crianças.

Sandra Cardoso