Segundo o Primeiro-Ministro, terão sido menos de 2%, os alunos prejudicados pelos graves erros neste processo de colocação de professores. Um pormenor sem grande importância, a julgar pela displicência do seu discurso. Pouco importa que nesses 2% se incluam escolas públicas da periferia social, maioritariamente escolas TEIP, da malha urbana e suburbana, eivadas de pobreza concentrada, segregações e carências múltiplas, onde a intervenção do Estado se impõe como uma escolha entre a preparação responsável e empenhada do futuro ou o abandono do porvir à inércia da criminosa negligência. Acomodado na sua mesquinha estatística, o Primeiro-Ministro não percebe a dimensão do dano e não entende que quanto mais elogia e defende o seu ministro da Educação, mais mostra a sua desconsideração, insensibilidade e ignorância sobre o papel central que a Escola Pública tem na sociedade, mesmo para os 2%.
A cobertura jornalística tem referido ser esta uma situação de escolas situadas em “Territórios Educativos de Intervenção Prioritária”, - um eufemismo para os chamados bairros sociais problemáticos. Escolas que se confrontam com graves questões sociais, com os naturais reflexos no desenvolvimento do trabalho educativo das aulas, no comportamento dos alunos e nos resultados escolares. Antes de se conseguir ensinar currículos, há todo um impreterível trabalho simultâneo e constante - e nem sempre bem-sucedido - de atender a carências humanas básicas, treinar competências sociais, trabalhar padrões de comportamento, personalidade, carácter e expectativas de vida, curar almas, construir pessoas, caminhos para uma verdadeira integração social cidadã... Um verdadeiro lutar contra a maré. Os professores que trabalham nestes e noutros projectos de respostas do sistema a alunos problemáticos, cá e lá, sabem do que se trata.
Os projectos TEIP pretendem quebrar manchas persistentes de fraca escolarização, insucesso e abandono escolar de largas centenas se não milhares de crianças e jovens, causados pelos ciclos malfadados e hereditários de pobreza, marginalização, exclusão social, e promover a dignidade e a equidade social, pelo envolvimento local de uma diversidade de actores e instituições, desde a Segurança Social às autoridades policiais, num monumental trabalho onde os professores são o pivot central. A sua não colocação atempada e imprescindível nestas comunidades onde a responsabilidade do Estado se sente com maior acuidade, compromete todo o desígnio e missão e significa mais um falhanço da Escola Pública. Mas isso não preocupa nem o Primeiro-Ministro nem os responsáveis da tutela, como se tem visto... Afinal, são menos do que 2%...
Há uma dimensão moral na Escola Pública. Ela constrói pessoas, trabalha valores, cria conhecimento, fecunda ideias. A ela se deve a formação de tantos e tantos cidadãos, que apesar de não terem nascido no berço que tudo garante à partida, se qualificam pelo seu talento e esforço, conseguindo vencer discriminações e desigualdades e se convertem em quadros técnicos qualificados, elites com provas dadas em todos os campos do saber, na Ciência, na Arte, na Tecnologia, na Literatura, na História, na Política, cujo contributo nenhum país moderno, nenhuma sociedade desenvolvida, nenhuma comunidade inclusiva se pode dar ao luxo de desperdiçar. Sem ela, quantos teriam ficado pelo caminho, sem poder desenvolver todo o seu potencial em proveito próprio e da sociedade? É a Escola Pública que fornece o portão de entrada, a rampa de lançamento, o ponto de partida para a encruzilhada da realização pessoal e colectiva, da ascensão e mobilidade social, o cânone da democracia e que não agrada a todos os padrões ideológicos, como sabemos.
A mediatização de toda esta lamentável situação retratou respostas evidentes: as famílias com maiores posses financeiras encontram soluções para a Educação dos seus filhos, bafejados por vantagens desde o berço. O problema que cabe à Escola Pública resolver é a imensidão dos que chegam ao berço e à escola com as grilhetas da pobreza enquistada, da desigualdade, da segregação e estigmatização pessoal e social, guetizados nos mais e menos e que é preciso integrar e fazer interagir, cabendo à Educação, mas sobretudo à Escola Pública fazer as pontes entre estes mundos tão diversos. As escolas e a sociedade estão interligadas; intervir numa irá necessariamente ter efeito noutra, ainda que não no imediato. Mas é a única aposta ética, necessária e obrigatória, sem boicotes nem políticas insanas. Pegar nos “abandonantes”, nos “faltantes”, nos desmotivados, excluídos, nos “maus” alunos e transformá-los em cidadãos pode implicar incursões pelo mundo da música, da arte, da dança, do teatro, caminhos do saber válidos, quando se fala de dignificação humana e construção de conhecimento, motivação e vontade de aprender e ser, sabedoria para a vida, disponibilizados também pela Escola Pública.
Hoje, em que já vamos na rotina dos primeiros testes de avaliação do primeiro período, pelo menos nas escolas onde o ano escolar se iniciou sem sobressaltos, um outro detalhe se realça: não se ouviu falar em falta de professores ou alunos sem aulas - pelo menos no espaço mediático - nas escolas dos rankings, da fina flor da burguesia das grandes cidades, algumas até contempladas pelas obras sumptuosas da Parque Escolar e consequente recheio de tecnologia educativa, (a festa, como lhe chamou uma ministra da Educação) e contrastam com o anacrónico quadro de giz, os equipamentos avariados ou inexistentes, a decrepitude e as carências de tantas outras onde se espera que crianças e jovens deste país aprendam, se eduquem, sejam sujeitos aos mesmos exames e até progridam na pauta da cidadania.
Parafraseando a displicência e insensibilidade do Primeiro-Ministro, estes são apenas 2% e acreditamos que a generalidade dos nossos dirigentes políticos, de um modo especial os responsáveis da Educação, a terem filhos em idade escolar, eles não frequentarão uma escola TEIP…
Júlia Caré