A liberdade não devia ser procurada no factor económico mas, sim na sociedade… No passado fim-de-semana, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no 3º Encontro “Presente no Futuro”, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, reuniram-se para falar sobre a liberdade, nas suas diversas vertentes, cerca de cem intelectuais como Gilles Lipovetski, Orhan Pamuk, Nastio Mosquito e Eduardo Lourenço, entre outros. O debate iniciou-se, perante uma assembleia de 2000 assistentes, pela definição do conceito de liberdade. O que é a liberdade? O que é ser livre? Que formas de liberdade existem? Qual a sua ligação à democracia? Analisou-se também a liberdade em Portugal: Os portugueses são livres? A sua liberdade tem história? As actuais instituições protegem a liberdade? No final especulou-se um pouco sobre o futuro da liberdade, estará ela ameaçada? Eduardo Lourenço e Michael Ignatieff (político e escritor canadiano) falaram sobre a acomodação dos portugueses à perda de liberdade e o filósofo (Eduardo Lourenço) avisou que há hoje uma “pausa” nos valores de Abril. Disse o antigo líder do Partido Liberal do Canadá e actual professor de Harvard: “Há um grande ressentimento por toda a Europa, incluindo na Alemanha, sobre a natureza pouco democrática das instituições europeias”, assinalou, mas os países não lutam contra isso. “A crise pode ser grave para a liberdade”, disse Ignatieff, lembrando que Portugal, Espanha e Grécia passaram, na sua história recente, por regimes ditatoriais mas que, apesar das grandes dificuldades em que mergulharam nos últimos anos, não voltaram a ter regimes autoritários. Porque, felizmente, “a democracia liberal é resiliente e forte na Europa Central e do Sul”. O filósofo Eduardo Lourenço foi o escolhido para abrir o tema – A Liberdade em Portugal – e para tentar responder a perguntas como: “Portugal tem uma cultura de Liberdade?” A este propósito respondeu o filósofo: “Não há revoluções com flores, mas na nossa houve. Não houve grandes vinganças, nem há nostalgias muito visíveis do Antigo Regime. Começa a ser algo muito longínquo.” E exemplificou: Só 40 anos depois se fez uma comemoração condigna do 25 de Abril, debatendo-se o assunto a sério. O que resta dele? Pouco… Disse ainda Eduardo Lourenço: “A liberdade é a forma normal de respirarmos. Quando se respira normalmente o problema da respiração não se põe.”, afirmou também o filósofo. Mas, hoje, os principais inimigos da liberdade, na verdade, “somos todos nós.” Porque “ninguém está à altura das promessas que fez”. Ao terminar a sua intervenção o professor, filósofo e ensaísta fez uma declaração, uma espécie de conclusão que serve de conselho aos governantes: “É sobretudo no ensino que está a base de uma democracia que mereça esse nome. É na escola que está o centro, o que possa haver de diferente no futuro que queremos, mesmo em tempo de contenções”. A educação não podia faltar no centro deste debate e o papel do Estado na garantia da liberdade. Lembrou-se, por isso, que “com a austeridade há potenciais alunos que se autolimitam e decidem não ir para a faculdade e isso infringe toda a nossa noção de liberdade de forma muito séria”. Na conjuntura actual o tema deste 3º Encontro “Presente no Futuro” é por assim dizer imposto por si próprio, dada a evidência de os dois termos que compreendem, liberdade e futuro, resumirem o problema crucial dos nossos dias. Se é certo que a simples liberdade é um conceito metafisico, e que os indivíduos, na sua vida real, sentem a necessidade de determinadas liberdades, consignadas pelo direito positivo, não é menos certo que as liberdades imbricam na liberdade. Reivindicar, por exemplo, como hoje em dia se tornou corrente, a “liberdade sexual”, já incluída nos costumes da época, nada se resolve se lhes não franqueia, no mesmo passo, a liberdade de espírito. Ora a liberdade de espírito, num mundo tão fragmentado como o nosso, entra em contradição com uma concepção de ordem social que constantemente mais a paralisa do que a incentiva. É no âmbito destas ordens sociais estabelecidas que um elevado número de jovens se recusa a participar, é contra elas que se insurgem e até surgiu uma nova forma de contestação que reivindica uma nova “revolução cultural” como se viu e ouviu no Centro Cultural de Belém no passado fim-de-semana. A questão que se nos depara consiste em saber se os inúmeros indícios de revolta a que hoje se assiste serão testemunho de uma autodefesa do humano, de um protesto do espírito contra a sujeição aos meios técnicos, ou, pelo contrário, consistirão no sintoma de uma nova vaga de niilismo puramente destruidora. Então não podemos, de maneira nenhuma, falar de liberdade e é por isso que não me admiro dos meandros da conversa que incidiu sobre a questão económica, social. Onde está a liberdade? Por mim, para mim, a liberdade não devia ser procurada no factor económico mas, sim na sociedade… José A. Roque Martins
A liberdade não devia ser procurada no factor económico mas, sim na sociedade…
No passado fim-de-semana, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no 3º Encontro “Presente no Futuro”, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, reuniram-se para falar sobre a liberdade, nas suas diversas vertentes, cerca de cem intelectuais como Gilles Lipovetski, Orhan Pamuk, Nastio Mosquito e Eduardo Lourenço, entre outros.
O debate iniciou-se, perante uma assembleia de 2000 assistentes, pela definição do conceito de liberdade. O que é a liberdade? O que é ser livre? Que formas de liberdade existem? Qual a sua ligação à democracia? Analisou-se também a liberdade em Portugal: Os portugueses são livres? A sua liberdade tem história? As actuais instituições protegem a liberdade? No final especulou-se um pouco sobre o futuro da liberdade, estará ela ameaçada? Eduardo Lourenço e Michael Ignatieff (político e escritor canadiano) falaram sobre a acomodação dos portugueses à perda de liberdade e o filósofo (Eduardo Lourenço) avisou que há hoje uma “pausa” nos valores de Abril.
Disse o antigo líder do Partido Liberal do Canadá e actual professor de Harvard: “Há um grande ressentimento por toda a Europa, incluindo na Alemanha, sobre a natureza pouco democrática das instituições europeias”, assinalou, mas os países não lutam contra isso. “A crise pode ser grave para a liberdade”, disse Ignatieff, lembrando que Portugal, Espanha e Grécia passaram, na sua história recente, por regimes ditatoriais mas que, apesar das grandes dificuldades em que mergulharam nos últimos anos, não voltaram a ter regimes autoritários. Porque, felizmente, “a democracia liberal é resiliente e forte na Europa Central e do Sul”. O filósofo Eduardo Lourenço foi o escolhido para abrir o tema – A Liberdade em Portugal – e para tentar responder a perguntas como: “Portugal tem uma cultura de Liberdade?”
A este propósito respondeu o filósofo: “Não há revoluções com flores, mas na nossa houve. Não houve grandes vinganças, nem há nostalgias muito visíveis do Antigo Regime. Começa a ser algo muito longínquo.” E exemplificou: Só 40 anos depois se fez uma comemoração condigna do 25 de Abril, debatendo-se o assunto a sério. O que resta dele? Pouco…
Disse ainda Eduardo Lourenço: “A liberdade é a forma normal de respirarmos. Quando se respira normalmente o problema da respiração não se põe.”, afirmou também o filósofo. Mas, hoje, os principais inimigos da liberdade, na verdade, “somos todos nós.” Porque “ninguém está à altura das promessas que fez”.
Ao terminar a sua intervenção o professor, filósofo e ensaísta fez uma declaração, uma espécie de conclusão que serve de conselho aos governantes: “É sobretudo no ensino que está a base de uma democracia que mereça esse nome. É na escola que está o centro, o que possa haver de diferente no futuro que queremos, mesmo em tempo de contenções”.
A educação não podia faltar no centro deste debate e o papel do Estado na garantia da liberdade. Lembrou-se, por isso, que “com a austeridade há potenciais alunos que se autolimitam e decidem não ir para a faculdade e isso infringe toda a nossa noção de liberdade de forma muito séria”.
Na conjuntura actual o tema deste 3º Encontro “Presente no Futuro” é por assim dizer imposto por si próprio, dada a evidência de os dois termos que compreendem, liberdade e futuro, resumirem o problema crucial dos nossos dias.
Se é certo que a simples liberdade é um conceito metafisico, e que os indivíduos, na sua vida real, sentem a necessidade de determinadas liberdades, consignadas pelo direito positivo, não é menos certo que as liberdades imbricam na liberdade. Reivindicar, por exemplo, como hoje em dia se tornou corrente, a “liberdade sexual”, já incluída nos costumes da época, nada se resolve se lhes não franqueia, no mesmo passo, a liberdade de espírito.
Ora a liberdade de espírito, num mundo tão fragmentado como o nosso, entra em contradição com uma concepção de ordem social que constantemente mais a paralisa do que a incentiva.
É no âmbito destas ordens sociais estabelecidas que um elevado número de jovens se recusa a participar, é contra elas que se insurgem e até surgiu uma nova forma de contestação que reivindica uma nova “revolução cultural” como se viu e ouviu no Centro Cultural de Belém no passado fim-de-semana.
A questão que se nos depara consiste em saber se os inúmeros indícios de revolta a que hoje se assiste serão testemunho de uma autodefesa do humano, de um protesto do espírito contra a sujeição aos meios técnicos, ou, pelo contrário, consistirão no sintoma de uma nova vaga de niilismo puramente destruidora.
Então não podemos, de maneira nenhuma, falar de liberdade e é por isso que não me admiro dos meandros da conversa que incidiu sobre a questão económica, social. Onde está a liberdade?
Por mim, para mim, a liberdade não devia ser procurada no factor económico mas, sim na sociedade…
José A. Roque Martins