O tempo passa e a política à portuguesa continua.
O Governo salvou-se entre “as gotas da chuva” na crise do passado mês de Julho. O Primeiro-Ministro aprendeu alguma coisa para a sua atuação futura ? Não me parece. Reestruturou o Governo mas nomeou titulares de cargos políticos que causaram polémica mesmo antes da sua tomada de posse. A política de comunicação revelou um fracasso que levou à suspensão para “férias” dos briefings. E o auge do “mais do mesmo” culminou com a acusação do Tribunal Constitucional de impedir a reforma do Estado. Impõe-se perguntar qual reforma?
Por seu lado, o Partido Socialista continua com medo da sua própria sombra. A sua ação a longo prazo tem como principal objetivo manter-se na oposição até 2015, a curto prazo ganhar por maioria confortável as eleições autárquicas, para que a médio prazo a liderança de Seguro não seja questionada. A restante oposição nem vale a pena comentar.
Todo este cenário não teria importância se Portugal não estivesse sob resgaste financeiro e a sua economia estivesse fulgurante. Ora tal não acontece. Além do mais, todo o cenário político cria um tal ruido que afasta a discussão do que me parece ser fundamental para Portugal e os portugueses. A recuperação da economia portuguesa e do nível de vida dos portugueses.
Assume especial importância o delinear de uma verdadeira política de incentivos ao crescimento da economia, com especial relevo o facilitar o acesso ao crédito em condições mais favoráveis e em linha com as taxas praticadas na restante União Europeia. Ainda, recuperar as políticas de apoio à Inovação e Desenvolvimento de forma a criar novos conhecimentos que se constituam como mais-valias para a indústria. E por fim, desta pequena achega, definir políticas de formação profissional. Em suma, a principal preocupação deve centrar-se na qualificação dos recursos humanos, pois estes são o que de mais valioso um o país tem.
No entanto para prosseguir esta política é necessário que existam recursos humanos e que estes sejam qualificados. Hoje assiste-se a um fluxo emigratório significativo com milhares de portugueses em idade ativa e com um razoável, ou mesmo elevado, nível de qualificação a sair de Portugal para procurar trabalho. Emigração esta que tem um caracter inovador, por comparação com os anos 50 e 60 do séc. XX. Agora os emigrantes procuram trabalho e não melhores ou mais compensadores condições, e têm uma qualificação incomparavelmente mais elevada fruto do investimento de milhões de euros na edução e formação profissional. Para além que partem desencantados e desiludidos com o seu país e, parece-me, sem motivos para voltar.
A emigração é a grande tragédia que assola Portugal pois significa a hemorragia do seus principais ativos e consequentemente coloca em causa a sua capacidade para ultrapassar a crise sócio-económica-política que se vive e mesmo o êxito de quaisquer medidas incentivadoras do desenvolvimento. A não tomada de medidas para estancar a hemorragia compromete o futuro de Portugal por gerações.
A dívida pode, e deve, ser paga mas sem uma população motivada e qualificada a capacidade de crescimento está comprometida. Sem crescimento não se pagam dívidas.
Enquanto a classe política não compreender o país em que vive e pelo que passam os portugueses não é possível falar de verdadeiras políticas de crescimento. Governar sem pensar na melhoria das condições de trabalho e de vida dos portugueses não governa para vencer a crise. Aos políticos cabe a criação de condições sócio-políticas para ultrapassar a crise e não se preocupar com tricas partidárias ou inventar tensões entre órgãos de soberania.
Parece aplicar-se a esta situação o que alguém afirmou, na década de 90, “Deixem me trabalhar” mas que eu reformulo para “Deixem os Portugueses trabalhar”!
João Paulo Beja