Espanha está apostada em fazer de cada punhado de terra alcançável por binóculo um pretexto para impor o seu Tratado de Tordesilhas. É, talvez, a postura imperialista dos tempos modernos que se expressa pela manifesta incapacidade de resolver a crise da coesão nacional. A lei da espada e da pólvora já não verga tribos. Os enclaves de Ceuta e Tânger deparam-se com o problema da imigração ilegal e do narcotráfico. A disputa do Saara Ocidental (de onde provêm as areias do deserto para compor as praias artificiais da Madeira) arrisca-se a ser o mais prolongado conflito de soberanias (entre Espanha, Marrocos e saráuis) desde a descolonização africana. Internamente El Rey é incapaz de estancar os movimentos independentistas que emergem com cada vez maior legitimidade popular desde a Catalunha até ao País Basco. Perante um cenário pouco animador para a coesão nacional, Madrid tenta encontrar soluções lá fora, expandindo a soberania do território para além da costa, para dar mar à imaginação e às necessidades da poderosa frota pesqueira, ávida por descobrir novos mundos. Mais ou menos Selvagens.

A argumentação que o governo de Madrid invocou para tentar convencer a ONU - que as Ilhas Selvagens são meros punhados de rocha que emergem a meio do Atlântico - é uma hipocrisia desmesurada e revela o desespero em colonizar as tais 155 milhas de território marítimo que o arquipélago das Canárias reclama. Os espanhóis estão inconformados por haver projectos de preservação da fauna e flora há décadas naquele extremo sul do território português, por haver vigilantes da natureza em permanência numa reserva natural total que pôs um ponto final às expedições de caça onde era permitido abater tudo o que mexesse. Já lá vão 46 anos, é verdade, mas a má vizinhança não esquece e, agora que escasseiam os recursos marinhos, a indiferença dá lugar ao ataque da cobiça.

Espanha deu o passo. Mas o peso do pé já se sentia há muito tempo. Madrid quer convencer a ONU que Portugal só tem direito sobre um mar territorial de 12 milhas da costa das ilhas Selvagens ou, quanto muito, a uma zona contígua até às 24 milhas - ao invés de serem parte integrante da Zona Económica Exclusiva da Madeira, como acontece. Ora bem, penso que qualquer um de nós compreende o argumento de ‘nuestros hermanos’, mesmo não dominando as matérias jurídicas da Convenção do Direito do Mar. O que não se percebe é porque razão as ilhas Selvagens (Selvagem Grande, Selvagem Pequena e Ilhéu de Fora), registadas nas cartas régias portuguesas do século XVI, com uma área equivalente a 945 campos de futebol, com projectos de preservação natural em curso há 50 anos e localizadas a 165 quilómetros de Tenerife, são meras “ilhotas”, quando rochedos com dimensão de um campo de futebol, a 200 metros da costa marroquina, já são um enclave espanhol. A Convenção do Direito do Mar muda à entrada do Estreito de Gibraltar?

Talvez agora se entenda melhor a razão da visita do presidente da República às Ilhas Selvagens, aquando do 50º aniversário da primeira expedição científica àquelas ilhas, que tanta indignação gerou num país em crise de quase tudo, até de valores, por causa de 160 mil euros gastos na logística. Tomara eu que a soberania de um território com a importância geoestratégica, histórica e patrimonial das Selvagens custasse essa pechincha. O que custa é ver o presidente do governo regional das Canárias a querer juntar argumentos em Madrid para colonizar aquilo que é nosso, enquanto o presidente do governo regional da Madeira continua preso ao passado alegando-se vítima da colonização do país que o defende. E quanto mais Alberto João Jardim delira com a "colonização do poder centralista de Lisboa", mais Madrid se convence que as Selvagens são mais colonizáveis do que rochedos marroquinos.