“Temos de ser uma máfia no bom sentido e ajudar-nos sempre uns aos outros”

- Alberto João Jardim, Abril de 2007, num encontro com a JSD

Os dicionários explicam que máfia vem do italiano mafia e que se refere a organizações clandestinas com pendor criminoso.

Não é, claramente, esse o caso que me leva a recordar a afirmação que abre este artigo. O que naquela altura foi pedido não foi uma mafia, foi uma máfia no bom sentido. E isso, como é bom de ver, faz toda a diferença.

Mesmo assim, por vezes, dou comigo a pensar no alcance verdadeiro daquela frase e do sentido prático que a mesma incute em quem se revê em movimentos, partidos, clubes, associações ou quaisquer outras organizações colectivas. Mas nada como umas simples eleições para se perceber melhor o que é e como se manifesta essa máfia. No bom sentido, claro! E quanto mais é o medo de perder o poder, mais visível é esse trabalho de grupo.

Mas então o que é, de facto, e como se detecta essa máfia no bom sentido? Simples. Aqui vão alguns exemplos do que me lembro, assim de repente, sem recorrer a cábula e pela ordem que me fazem seguir o raciocínio e a memória. A máfia no bom sentido:

É o controlo apertado de quase tudo o que mexe numa sociedade que mal se mexe; É o domínio dos ditos seres pensantes; É a troca de favores; É a ramificação de um partido em comissões quase de sítio; É a participação, com tendência dominante, nos clubes desportivos; É a presença quase plena nas associações cívicas; É o preenchimento de quase todas as vagas da solidariedade; É a prática ostensiva da caridade; É o domínio reles e ilegal de um Jornal da Madeira pago por todos nós; É a domesticação de grande parte da Igreja; É a tentativa de controlo dos ‘estrangeiros’ que chegam à ilha para várias funções; É o Governo a fazer campanha eleitoral de forma desavergonhada; É o poder local submisso aos senhores do Governo; É anunciar a obra, ir ao terreno, visitar os trabalhos e voltar para a inauguração; É usar o carro do Governo para a inauguração e o comício; É deixar candidatos do poder falar em nome do Governo; É usar o palco do Governo para a festa do Chão da Lagoa; É amedrontar e ameaçar eleitores em caso de vitória da oposição; É fazer eventos do Governo com artistas que dão uma ajuda ao partido; É dar-se ao luxo de não pagar água e luz por instalações partidárias e pela fundação do partido; É o Governo mandar a Empresa de Electricidade cortar a luz a essas instalações em casos de atraso; É fazer obras à pressa e de forma desajeitada para enganar eleitores; É prometer e não pagar bolsas de estudo; É o domínio nas direcções das escolas; É a predominância nas Casas do Povo; É a garantia de ter dos seus até nas confrarias e sacristias; É a lógica de que uma mão lava a outra; É a atitude irresponsável de mandar fazer que alguém vai pagar; É ter a ideia de que se é intocável – e pô-la em prática; É ter os empresários com rédea curta; É ser capaz de fazer os telefonemas certos para as pessoas certas; É vulgarizar a Assembleia regional, mostrando que quem manda é o Governo; É chegar às associações de estudantes; É minimizar o trabalho das oposições; É trazer a sociedade como se traz um burro atrás da cenoura; É distribuir dinheiros públicos como se privados fossem; É fazer avançar ou recuar um concelho consoante as opções políticas; É dizer a jornalistas que vão para o olho da rua – no DIÁRIO já foram... É aproveitar-se das tragédias dos outros para aparecer como o bom da fita; É usar o poder de forma discricionária sem prestar contas do que faz; É dar sacos de cimento e telhas em vésperas de eleições; É prometer empregos a quem deles precisa e não cumprir; É ameaçar velhos de perderem a reforma em caso de vitória da oposição; É usar truques baixos para apoucar quem faz frente; É aceitar ajudar só quem ajuda, desde que isso represente apoio claro ao poder; É ter órgãos do Estado com ‘medo’ de sujar as mãos numa parte do território; É fingir que governa e acumular lazer com a reforma; É viajar à grande por essa Europa fora sem dar cavaco a ninguém; É assumir, sem consequências, que esconde dívida para fazer obras à toa; É fazer túneis e pontes e muros e estradas e centros cívicos sem utilidade; É ter a ‘promenade’ mais alta e cara do mundo sem ninguém por lá passar; É tudo isto e muito mais.

No fundo, é o sistema instalado na Madeira nos últimos 30 e tal anos, desde quando os prospectores bancários foram escolhidos, com êxito, como agentes da máquina que se tornaria num polvo gigante que toca em tudo e ao mesmo tempo.

Nem tudo será assim tão negativo. Entre agentes sem escrúpulos ou com espírito toldado pela máquina, parte da direcção que nos governa há décadas é constituída por gente de bem. Pessoas honestas que encaram a Política (com maiúscula) como uma forma de chegar aos outros, de ajudar os outros, de intervir na sociedade. Associam-se à volta de ideais, de valores, de princípios e defendem-se como podem. Por vezes, porém, fazem exactamente aquilo que interessa: dar um ar de seriedade a um sistema que estará longe das práticas da máfia e mais longe ainda do tal bom sentido.

Se a ideia de máfia se pode associar, com uma benevolência quase forçada, ao comprometimento de vários agentes em prol do bem comum da organização e da terra, também o bom sentido se pode interpretar como um espírito de união, quase de irmandade. O pior é quando se ultrapassa a linha do bom senso, como acontece todos os dias na Madeira. Aí, como se tem visto nos últimos anos, a máfia no bom sentido pura e simplesmente não faz sentido nenhum.

A máfia no bom sentido é a Madeira contemporânea.