No início da década de setenta, desfazia-se o ideário salazarista e de imediato surgia um outro que fazia sorrir o povo português, povo que saiu à rua para selar uma revolução concebida e operada pelas Forças Armadas.
Entrou-se num período a que se chamou de democracia e que chegou mesmo a cheirar a cravos vermelhos, cor que, no entanto, sempre desagradou a alguns que nunca quiseram destoar do regime anterior e nessa prática quiseram manter-se pelo tempo fora.
Feridos os ideais da revolução cravina, a Madeira sobressai na fuga à democracia e, à bomba, tenta liquidar a liberdade e a rosácea dos partidos da democracia portuguesa.
Uma curta primavera surgiu depois com os primeiros órgãos autonómicos, Assembleia e Governo, o que abriu a esperança de que Abril tinha valido a pena. Sol de pouca dura. Dois anos volvidos reaparece um símbolo da ditadura, que veio para ficar, que logo tomou conta de tudo e fez o povo voltar a viver nas garras do partido único, dum governo e dum poder entranhado em tudo para que nada desalinhasse. Uma espécie de nova PIDE que tudo controla, tudo domina, tudo esfrangalha, tudo afoga e tudo engole.
Como um ditador acaba sempre por cair, e após algumas insurreições no interior dos quartéis afectos ao poder, eis que surge o 29 de Setembro. O dia amanhece com um movimento nunca sentido em quase quatro décadas, famílias inteiras, jovens e adultos com um ar de determinação em cada rosto, uma ânsia de mudança e um desejo de ajuste de contas.
Para as mesas de voto, com o farnel a tiracolo, de forma a não se dispersarem um só minuto na jornada, que se previa disputada, duradoira e penosa – não descurando lutas contra actos de falcatrua – acorreram olhos atentos e fiscalizadores.
Os olhares entre os agentes das diversas forças eram estranhos, as tentativas de desvio de cruzinhas eram mais que muitas, o frenesim era sufocante.
O povo não ficou em casa, cada um trazia a certeza de que a sua arma – a arma dum voto que só ele decide a quem confiar – seria utilizada de forma certeira e que, com a chegada do fim do dia, chegariam também ao fim as maiorias do quero, posso e mando e nada seria igual a partir desse dia. E a festa ecoou, desta feita não numa ponte nova ou velha, mas em toda a terra que, agora sim, passou a ser conhecida como a Madeira Nova. Desde então, o 29 de Setembro ficou conhecido como o primeiro dia de eleições livres na Madeira.
Viva o 29 de Setembro!
Nota: o próximo capítulo será escrito em 2015, após uma saída de sendeiro, a ocorrer no final de 2014.
Eduardo Fonseca