O céu muda para o ultramarino, o azul-metálico, varia ainda a cor, enverdece, arroxeia-se, depois enegrece de todo em todo. Ergue-se um vento violento que faz torcer e desgrenhar as árvores, bramir as florestas, silvar as ervas, e que desvia as aves no seu voo.
O céu é gigantesco, sobranceia a terra como uma muralha de ferro. Um silêncio glacial abate-se sobre a terra, sobre as casas de portas e portadas cerradas, sobre os prados cinzento-ardósia, sobre as charnecas desertas, sobre os pauis onde tiritam as aves.
E de súbito eis que o céu se quebra num formidável estrondo. A muralha de ferro recobre-se de cal. O mundo, por instantes, parece retornar ao dilaceramento das origens, ou então estar muito por perto do seu fim derradeiro. O tempo já não existe, a eternidade fende as nuvens - e assina.
Lívida, fulgurante assinatura em escrita recortada. Assinatura de ira como um estralejo de chicote fluorescente lançado á face da terra em desafio ao torpor humano, em ameaça de castigo, em juramento de vingança. Ou então, quiçá, em sinal de congregação - que os homens se ergam finalmente, se descartem do seu entorpecimento, se arranquem ás suas trevas e se ponham a caminho da luz prometida.
Por três vezes, o relâmpago fulmina num ribombo contínuo, zebrando as nuvens com as suas sinuosas assinaturas. Por três vezes, o relâmpago fulmina num ribombo contínuo, zebrando as nuvens com as suas sinuosas assinaturas. Por três vezes, o céu estala e o horizonte empalidece. À terceira vez, o relâmpago forqueia-se, arpoa a terra em pleno flanco. Parece que a terra trespassada vai ser soerguida, depois tragada nos sorvedores das nuvens. No entanto, sem esperar, as águas tomam a terra de assalto. A chuva cai na oblíqua e fustiga violentamente os telhados. Na sua pressa desencabrestada, a chuva ressalta no solo, nos muros e nas telhas, esguicha por toda a parte crepitando, faz jorrar milhares de géiseres cintilantes.
A forquilha do raio cravou-se no flanco da terra, e a terra gemeu com as entranhas queimadas. Mas o clamor do céu, ora de ferro, ora de cal, ressoa de pancadas ensurdecedoras que a abanam, ameaçam fazê-la rebentar. Eespera-se ver irromper, de entre as ruínas do céu desmoronado, bordas de guerreiros cor de corisco armadas de machados e tridentes incandescentes.
A criança que observa a trovoada, e cujo coração retumba do fragor e do estampido do trovão, espera ver isto mesmo.
Sim, espera-o, numa mescla de desejo e susto. Quer que surjam bordas de guerreiros veementes, com os rostos brancos de ódio, gritos estridentes, e que arremetam ao assalto da terra. Este voto fá-la tremer.
Sobrevém, no entanto, um derradeiro relâmpago, lá muito longe no horizonte para onde a trovoada já se retira. Relâmpago delagado e puro de luz azulada. E a esta extrema luz toda a terra de súbito se soleva, se reúne, a terra concentra-se por momentos no cerne deste deslumbramento. E reluz, soberba e apaziguada após tanta violência. Purificada.
Então a criança baqueia e desata a chorar.
Renata Camacho