
A chamada pré-campanha eleitoral para as ‘autárquicas’ começou animada e até teve alguns rasgos de criatividade com mensagens subliminares interessantes, além de ideias novas que, se formos a ver bem onde anda o desterro, não será preciso ganhar o céu para torná-las exequíveis. Mas bastou entrar na fase oficial de campanha para que fosse aberta a época de caça, dando início a uma batalha sem escrúpulos que voltou a colocar o discurso político ao nível das pedras da calçada.
As sondagens produzem este efeito nocivo para o esclarecimento público, que é os candidatos se atrincheirarem e apontarem armas às diferenças e aos defeitos uns dos outros, direcionando as suas ‘máquinas’ para anular os seus adversários, recorrendo aos mais baixos expedientes que ofendem a inteligência das pessoas, simplesmente porque o ruído dá votos.
O extremo deste nervosismo, que começou miudinho e vai já numa enorme tremedeira, ficou bem patente numa declaração pouco democrática do presidente do Governo Regional, cuja figura continua, numa espiral recessiva, a confundir-se com a do líder do PSD. Na Camacha, Jardim desembolsou o velho cardápio de dinossauro carnívoro (os herbívoros são os que protestam e “só sabem gritar” – lembram-se?) e disparou um daqueles velhacos argumentos usados pelo regime para intimidar o povo: “Eu não resolvo coisa nenhuma se Santa Cruz votar mal”, deu o sermão nos habituais sacrilégios que, com a conivência da Igreja, encostam os fiéis, mal fizeram o sinal da cruz, à parede, à saída das missas. Mas o que é votar mal? É o exercício de um direito, um acto de cidadania. E chantagear o eleitorado é o quê? Uma fraude inocente ou uma imoralidade indecente?
“Se estes senhores ganharem, garanto-vos que esta câmara vai ser executada”, ripostou ainda para quem ficou com dúvidas. Mas quem faliu o Município foram “estes senhores” que nunca lá estiveram? O que importa isso quando o objectivo é mesmo profanar a consciência individual com diabretes a segurar setas de cor laranja-inferno na hora em que a mão segura a caneta sobre a mesa da urna?
Sem querer me alongar, para não voltar a ser acusado de “analfabeto” pelo dr. Jardim, cada vez mais me convenço de que a política em democracia deveria prever multas para a demagogia, sanções acessórias para quem ofende a inteligência e a memória da cidadania e prisão para quem instaura a cultura do medo de mudança. O resto é esperar que a democracia aconteça, validando e respeitando - se em consciência for - o voto bom, o mau e até o vilão.