Estão aí as eleições autárquicas. Paira no ar o bailado das palavras e das imagens, exibem-se cartazes gigantes com fotos de personagens de olhar generoso e frases arrojadas. Tudo dentro dos valores normais para a época. A maturidade democrática inclui, na lista, o desconto dos exageros e gabarolices com que se adjetivam os discursos e se enaltecem os concorrentes. Para se governar a cidade é preciso ter uma conceção de cidade. Mesmo que se trate de uma pequena aldeia que nunca chegará a vila. Por isso me atrevo a aconselhar os candidatos e votantes a alguma moderação e bom senso porque o que está em causa é muito importante e, numa forma especial, no tempo de hoje. Porque não é possível gerir a cidade, hoje, sem ter em conta a reflexão sobre a urbe que cada um constrói tendo em conta a sua história, os seus contextos geográficos, culturais, os seus novos tecidos, as mudanças que se operam. Importa lembrar que as cidades têm alma, evolução nas populações, imigração, mobilidade, alterações demográficas, ambiente, transportes, riscos, silêncios, esquecimentos, medos, fugas. E… , pobres, excluídos, marginais, anónimos em excesso. Tudo isto somos nós. Neste tempo de eleições rolam, como pedras em hora de maré, palavras e promessas de políticos, que dizem metade do que pensam, prometem o dobro do que podem e jogam, honestamente se possível, a sua função de governo ou oposição. O cidadão já está exausto no esforço de perceber se, quando o político diz amarelo, pensa vermelho, se fala em roxo, tem na mente verde retinto; se exibe branco, esconde negrumes envergonhados. Sempre assim foi, dirão. Só que o tempo que vivemos é de opções claras, ideias limpas e convicções reforçadas. Nestas eleições joga-se muito. Impõe-se antes de tudo uma atitude de mudança. No país, porque já ficou claro que com estas políticas governativas não temos futuro. O que está em causa é o pão, a cultura, a cidade, o futuro, o direito de respirar e a vontade de pisar o chão que não proíba o voo e o sonho. As catástrofes que nestes últimos dias têm assolado várias zonas do país, reduzindo populações inteiras ao limite da sobrevivência, dão a dimensão do amontoado de inutilidades em que se desgasta grande parte da nossa orquestra política e social. De facto a experiencia do despojamento, de ficar perante o quase nada, leva-nos à desvalorização de muitas supérfluas politicas que agora são prodigamente prometidas. Por outras palavras: vaidade das vaidades, tudo se esvai em ações no tempo, ficando apenas o essencial. É talvez esse um dos pecados do homem moderno. Prender-se no acessório sem notar, e perder o essencial sem uma lágrima. E, ao que parece, esta é a forma menos má de fazer política. Na Região Autónoma da Madeira esta expectativa de mudança ainda se impõe com maior acutilância. A situação económica e social aponta para o fim de um ciclo que já tardava, quanto de incompetência, corrupção, compadrio, carreirismo, o jardinismo trouxe a esta população. Quando muitos acreditavam que a Autonomia nos iria trazer desenvolvimento e prosperidade estamos afundados em miséria e com os indicadores sociais mais baixos da Europa. Com um Serviço de Saúde tecnicamente falido, com indicadores preocupantes no insucesso escolar e no abandono escolar, com o desemprego altíssimo, uma população activa a descer a pico… Salvam-nos as participações sociais que ainda vão garantindo o pão na mesa de muitas famílias madeirenses porque pagas pelo Orçamento da Republica. Num misto de gozo e tristeza relembro que há muito pouco tempo as ordens do jardinismo e seus acólitos eram no sentido de reduzir ao máximo este tipo de participações porque elas eram o garante explícito da pobreza na Região. Falo do RSI, do Complemento Solidário para Idosos e do Subsidio de Desemprego, por exemplo. Dizem-me, em contraponto ao que aqui afirmo que estas eleições são apenas autárquicas e que por isso todas estas questões dizem apenas respeito ao Governo Regional. Nada mais absurdo tendo presente que uma das frentes mais marcantes do jardinismo é o poder autárquico porque aqui afloram de uma forma pujante, o carreirismo, o compadrio e a corrupção. É tempo de mudar, é tempo de assumir nas nossas mãos o nosso próprio destino. É tempo de dar lugar à esperança. Mas a esperança não é entusiasmo sem conhecimento. Se temos o direito de continuar a esperar, é graças á convicção de que os ideais da verdade e de justiça têm algum valor de explicação da realidade deste mundo, de que a lógica das coisas pode coincidir, pelo menos em parte, com a lógica dos valores. Importa refletir com os dados da realidade, sublime e mesquinha, como em todas as épocas. E recolher humildemente os sinais que os nossos tempos nos irão oferecer como verdadeiros desafios de mudança. Assim, creio…
José A. Roque Martins