Está o partido do poder na Madeira em grande sarrabulho. Dir-me-ão que a vida interna do partido diz respeito, apenas, a si próprio e aos seus militantes; em regra é verdade, mas as lutas internas do PSD-M têm consequências demasiado sérias para os madeirenses. Aqui, o poder não serve para prosseguir caminhos e estratégias - mesmo que não sejam os mais adequados para a vida das pessoas; aqui, o poder, até agora bastante coeso e aglutinado à volta do seu chefe e do regime que ele fez instalar, tem-se destinado a servir pequenos grupos de interesses e projectos próprios. Em situações democráticas sérias, é normal que uma governação gasta e caduca abra espaço a soluções diferentes, a novas acções governativas, a mudanças. Aqui, esta realidade é impensável para o partido maioritário porque sabe que, no dia em que isso acontecer, inevitavelmente se desmancharão compadrios e se acabarão as negociatas e seus exorbitantes lucros, consolidados em mais de 30 anos de um poder que não só não convive com opiniões contrárias nem com opções diferentes, como retalia sempre que pode, prejudicando, ostracizando, insultando e humilhando. E que não se dá, sequer, ao trabalho de disfarçar! Como é que é possível que enquanto todos se esforçam para cumprir as suas obrigações legais, a fundação social-democrata não pague água nem luz? É que não paga por não ter dinheiro; não paga, porque se acha acima da obrigação de pagar. Arrogância, pura e dura! Governação, não existe; orientações estratégicas, eclipsaram-se. Preocupação com o bem-estar das populações? Onde é que isso já vai! Os problemas na saúde acumulam-se, a par do desemprego e das dificuldades financeiras. A economia continua sem saídas. ‘Descobre-se’ o custo da manutenção de megalómanas obras marítimas e ‘elogia-se’ a tolerância zero na construção junto às ribeiras. Quantas vezes foi avisado, dr. Jardim? Vá ver se chove! Jardim, que nem se deu ao incómodo de vir ao terreno e apoiar todos quantos combatiam os fogos que lançaram o pânico, a dor e a devastação; continuou no Porto Santo e caucionou as férias (em Agosto??? ) do responsável pela protecção civil - um Serviço da administração indirecta do Governo Regional. Só culpa os incendiários, mas passa por cima do crime de florestação do ‘pulmão da cidade’ com eucaliptos e acácias - da responsabilidade do seu governo. Entretanto, o ‘prémio’ para os bombeiros foi um corte de 20% nos apoios às corporações! Sucedem-se os recados para dentro destinados a sacudir, desde já, a água do capote quanto aos resultados autárquicos; a ‘unidade impecável’ traduz-se em continuados ataques e bicadas internas, a revelarem abutres inquietos; delfins hoje à sombra do chefe, ex-delfins amanhã, ignorados e expectantes. Que o chefe, ele mesmo, é a personificação do desgaste e do nervosismo que atingiu os responsáveis do poder regional, patéticos e desorientados atrás de uma ambição que lhes escapa. Jardim uma vez mais mostrou não querer sair de cena (a chantagem já recomeçou com as lágrimas de crocodilo sobre ‘ingratidão’); não vai cuidar dos netos e também dificilmente se remeterá a um comedido silêncio ou aceitará perder influências e deixar de dar ordens. Não se lhe reconhece estatuto de estadista, pelo que não se perspectiva qualquer função no país e muito menos no estrangeiro - não é um Guterres, hoje Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, nem um Jorge Sampaio, Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações. Espera-o o crepúsculo sombrio dos que não ficam na história como bons exemplos. Acontece tudo isto quando - e especialmente porque - a pré-campanha das autárquicas não está a correr bem ao poder regional e os indicadores são perturbantes: prevêem-se vários desaires no final da noite eleitoral ficando, aliás, por saber se a última reunião política da maioria não vai produzir danos piores que os resultantes de uma ida a banhos no Porto Santo ou de uns oportunos encontros em Bruxelas. Tanto mais que conhecendo-se, como se conhecem, as fortíssimas suspeitas que em municípios como o Funchal e o Porto Moniz a oposição não chegou ao poder, mais cedo, por acção de misteriosos ‘fantasmas’ que se entretiveram a mandar assombrar as urnas eleitorais…, poderá ter chegado a altura de provar que apesar dos mistérios, com seriedade, determinação e uma grande convicção na mudança, os fantasmas também se abatem.

Violante Saramago Matos