Cipriano Gouveia Era uma vez uma ilha remota, que depois de localizada criava um belo recanto no imenso mar. Com um clima suave e aprazível, os seus habitantes nunca sentiam frio ou calor. A fauna e a flora eram paradisíacas, sem igual. Aquela ilha tinha uma orografia caprichosa, com alcantilados abruptos formando profundos vales por onde parecia emergir estranhas criaturas. Tinha uma floresta mágica! Asseguram os que a viram que naquela floresta nada morria. As árvores mais antigas tinham milhões de anos e deslocavam-se pela floresta como nós o fazemos hoje pela cidade. Os pássaros tanto podiam chilrar como também podiam falar e faziam-no numa língua estranha há muito perdida no tempo. Do que resta de memória sobre aquela floresta, contam ainda que havia uma espécie de seres chamado de Laurus, era uma mistura de animal com cabeça de humano com cornos e corpo de cavalo, tanto podiam cavalgar como andar em duas patas, estes também falavam a tal língua considerada sagrada, a cor da sua pele oscilava entre o verde-esmeralda e a cor beije dos cogumelos. Já fora da floresta mágica, os habitantes não eram eternos, mas viviam longa e felizmente as suas vidas de ilhéus tranquilos. Mas, o mais curioso e o mais estranho daquela ilha, era que de todos os habitantes apenas um sabia nadar. Um único homem apenas se lançava ao mar enquanto os outros, uns de pé e outros sentados ficavam a olhar. Aquele homem julgando-se ser o único capaz, conseguiu convencer a todos de que só ele tinha o direito de entrar no mar. Dizia: - “mais do que a minha força humana é graças ao monstro marinho que eu posso entrar no mar, se algum de vocês o fizer, sereis devorados logo de seguida pelo grande monstro!” Assim, aquele habitante ofuscado por uma sede de poder insaciável passou a ser idolatrado pela grande maioria dos habitantes. Conforme passava o tempo, expandia cada vez mais a sua obscura manipulação. Tinha dias marcados onde multidões de pessoas iam o ver nadar e ignorantemente lhe ofereciam objectos e frutos que tanto lhes custava trabalhar. Formou-se uma comitiva gananciosa e voraz que o apoiava. E, segundo eles, viam o monstro implacável a rondar a costa marinha. Desta maneira e com esta artimanha, aquela pessoa e os seus sequazes tronaram-se uma autoridade impune, manipulando e vivendo assim à custa dos incautos ilhéus, seus semelhantes. Ninguém sabe porquê, ninguém sabe qual foi o motivo, mas, desde aquela época, a palavra «responsabilização» foi completamente proibida de ser pronunciada. Deixou de ser escrita e nunca mais apareceu nos dicionários. Somente os anciãos e anciãs ainda a recordam, ainda conhecem o seu inteiro significado. Mas os desleixados desde que lhes dêem um pouco de esmola respondem que não lhes interessa dita palavra. E aos indiferentes/cúmplices como nada lhes falta papagueiam a favor da instaurada patranha. Cá nada…