Há dois anos, por esta mesma altura, aqui escrevi sobre o património dos Automóveis Clássicos. A esse propósito, apraz-me registar uma evolução notável no panorama organizativo regional, havendo renovada esperança, manifesta abertura de entendimento e lógica de cooperação. Muito há para fazer, concretizar, envolver, assimilar e perspectivar mas sente-se que o caminho é conhecido. Ainda bem. A Madeira fica a ganhar! Hoje, por razões menos boas, volto ao tema e à importância daquele património. A crise trouce consigo as inevitáveis oportunidades de negócio. Os portugueses estão vendedores dos seus automóveis e assiste-se a uma debandada, sem paralelo dos clássicos para fora do país. Nestes dias é habitual ver anúncios de automóveis clássicos à venda em revistas portuguesas que já nem se encontram no território português, ainda que matriculados cá. O negócio moveu-se para o centro da europa e leva grandes quantidades à proximidade dos emergentes compradores. Simultaneamente, nunca como agora, a China importou tantos automóveis clássicos por mês. Os mais valiosos continuam a ser os mais cobiçados! Portugal, em menos de quatro anos, viu reduzido o número dos Mercedes 300SL, matriculados no país, de cerca de uma dezena para um ou dois sobreviventes! Os famosos “Gullwing”, cuja versão fechada vale mais que a aberta, estão a ser comercializados acima dos oitocentos e cinquenta mil euros... Recentemente, a melhor coleção de Mercedes existente em Portugal, e muito provavelmente de todo o mundo, foi leiloada, a saldo, em Londres, por vinte milhões de euros (estava avaliada, pelo clube nacional da marca, em cerca de cinquenta a sessenta milhões de euros). Foram mais setenta e quatro maravilhosos automóveis que deixaram o país. Só este conjunto representava um património muito superior à grande maioria daqueles que justificam a existência de muitos dos museus de clássicos que existem por esse mundo fora e, mesmo assim, em Portugal, nunca passou da escuridão da garagem que o albergava. São sinais dos tempos, oportunidades adiadas ou mesmo perdidas.

Eduardo Jesus