O futebol não tem regras, não tem a regra geral; tem leis antigas de 1866 do International Board que se alteram a passo de caracol. O guarda-redes nasceu em 1871 e com ele o frango sem penas. O penalty e o árbitro vieram vinte anos depois e, por esta vida fora, raramente se entendem. Substituições, em 1958; amarelos e vermelhos, em 1970. O jogo é outra loiça; é intelectual e matemático; tem tácticas, fórmulas, combinações. «Se compararmos as leis oficiais tribais, tal qual eram aplicadas no fim do século passado, com as de hoje» – escreve Desmond Morris, em A Tribo do Futebol – «a quase sagrada rigidez do jogo depressa se torna óbvia». Em 1925, o Arsenal de Herbert Chapman, rejeitando todos à molhada e fé em Deus, apresenta o WM (2x3x5) que constrói o quadrado mágico e no meio-campo fica a imagem bidimensional de quatro linhas paralelas. «Chapman (1875/1934) é ainda hoje considerado o manager do século, o primeiro homem a ver associado o nome à história como treinador de futebol» que «transformou o jogo a partir da concepção táctica que lhe permitiu chegar ao WM e o próprio futebol como administrador visionário, cujas ideias foram combatidas e travadas pela federação inglesa de futebol – pretendeu números nas camisolas, a introdução de bolas brancas e de holofotes nos estádios», escreve-se em O Mundo do Futebol (fascículos de A Bola). Já Álvaro Magalhães entende que o WM representa «um sistema táctico que era um cânone de rigor e simetria e fazia apelo à mecanização e à cooperação organizada». Para o autor do livro Jogo Perigoso, «com o WM o futebol iniciou a sua Idade da Razão, em que iria consolidar a sua organização e abrir-se definitivamente às marcas do sistema de produção capitalista com a implantação do profissionalismo». Em 1954, o Benfica vai buscar Otto Glória ao Vasco da Gama (12 contos por mês, 60 de luvas e 100 por cada campeonato) e é campeão (os mesmos pontos do que o Belenenses) com um treinador que espanta o futebol português ao meter um 4.º defesa, jogando num 4x2x4, como já se fazia em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Com a alcunha de omelete («não se fazem sem ovos», dizia), cria o Lar do Jogador e quer um Benfica profissional, mas esta realidade europeia, desde sempre empatada pelo Estado Novo, só chegaria legalmente a 30 de maio de 1960.

Juvenal Xavier Jornalista