O Mote

Era um encontro transinsular, de onde se via, em toda a beleza, a baia do Funchal. O meu interlocutor, douto em náutica e de mais coisas do mar, propunha um brinde aos encontros dos mares da Macaronésia. O fim da tarde celebrava o Open Day da Madeira Multilingual School, o primogénito de uma família maior – a CPLP Multilingual Schools -, cuja missão reza a criação de escolas de elevada qualidade pedagógica nos vários espaços da lusofonia, estando Cabo Verde projectado como segunda gestação. Brindava-se, pois, às Ilhas Afortunadas.

Da Mitologia

Não são poucas, embora desconhecidas do grande público, as afinidades entre o arquipélago da Madeira e o arquipélago de Cabo Verde. Aquilo vem da mitologia, quando os gregos antigos, com Platão à cabeça, sonhavam com o continente no meio do oceano atlântico – Atlântida de nome, onde ficaria o Jardim das Hespérides. Para os gregos, o grande e mítico continente foi submerso por um grande cataclismo, um fenómeno diluviano (e provavelmente vulcânico), ficando do mesmo algumas cordilheiras no oceano – chamemo-las Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde, senão tão simplesmente a Macaronésia, como a designou o geólogo e botânico inglês PhilipBakerWebb. Entrementes, as afinidades não se resumem à mitologia, cuja verdade nem sempre se compagina com as realidades geomorfológicas, biogeográficas, antropológicas e históricas. Destasúltimas verdades, isto já são outros quinhentos…

Por mares navegados

Foram as navegações quinhentistas dos povos ibéricos – portugueses e espanhóis – os desbravadores dos arquipélagos que compõem a Macaronésia. Sem estas ilhas, não era possível ir mais além, nem ir mais ao largo. Sem esta realidade insular a «meio do caminho» o mundo não se globalizaria a partir dos Quinhentos. De certa forma, o Mercantilismo Europeu (que explica um bocado) e a Saga dos Descobrimentos (que conta outro bocado), sem estas ilhas no Atlântico, a Índia, o Brasil e as Américas, bem como o resto do planeta, nem vê-los. Só por isso, as Afortunadas deviam ser Património da Humanidade.

Uma questão prioritária

E quanto ao presente e, já agora, o futuro? Qual o papel que os arquipélagos das Canárias, Madeira e Canárias, enquanto regiões ultraperiféricas europeias, podem exercer para abrir novas janelas de oportunidades à Parceria Especial entre Cabo Verde e a União Europeia? E qual o papel que o arquipélago cabo-verdiana, enquanto Sahel insular, pode exercer para activar uma relação mais dinâmica entre os demais arquipélagos macaronésios e a CEDEAO? Olhando, muito por alto e um tanto pela rama, qual o papel útil, para não dizer estratégico, da Macaronésia na inter-relação Europa – África, bem como aquela com o resto do mundo? Centrando o olhar, com mais interesse das partes, notamos claramente que a Região da Macaronésia precisa ser reflectida, idealizada, montada e projectada, de forma mais efectiva e optimizada, como factor importante da ressocialização das relações internacionais e da resignificação do mercado global, numa perspectiva interatlântica.

Perspectivar o Atlântico Macaronésio

Por conseguinte, há que perspectivar o Atlântico de maneira mais global, desde os ecossistemas às pescas, dos minérios à segurança marítima, criando neste “mare nostrum” (em verdade, mar comum) um extenso corredor de cooperação e desenvolvimento para os nossos arquipélagos. Manuel Pinto de Abreu, um dos grandes especialistas europeus sobre o Mar e Secretário de Estado do Mar, de Portugal, dissera que precisamos de uma estratégia que vá de norte a sul, de leste a oeste, do Atlântico. Não poderemos estar mais de acordo, nós que perspectivamos o oceano da quilha das nossas ilhas da Macaronésia.

Geoestratégia alargada

Para além do aspecto económico, de forma alguma negligenciável, há que pensar a questão estratégica da segurança e da paz inter-regional. Há que pensar a geoestratégia alargada. Tornou-se, desde o início, evidente que a Macaronésia é detentora de um enorme espaço geoestratégico. Sendo zona de intenso tráfego aéreo e marítimo internacional, ela é também zona de insidioso tráfico ilegal de drogas, armas e seres humanos, para além de intensa cobiça do terrorismo e da pirataria. Temos de perspectivar este “mare nostrum” como um caudal de oportunidades e, a par das periferias, como uma nova centralidade de que fazemos parte activa e estratégica.

Quo vadis?

O importante é buscarmos (unidos e convergentes) e encontrarmos (mais juntos e mais fortes) os caminhos do crescimento, da inclusão social, da geração de emprego e rendimento, e da estabilidade económica para as nossas gentes. Para tanto, impõe-se uma narrativa macaronésia…

* Filósofo e escritor, conselheiro do Primeiro Ministro de Cabo Verde

Filinto Elísio *