Como já não governa nem se aposenta, Alberto João Jardim não se levanta nem se senta. Não sabe se apoia o delfinato ou se reaparece como candidato. Para fazer não sabe bem o quê. Sem “obra emblemática” para espantar o povinho ao estilo da escola da popular democracia insular, sem espetada nem vinho para oferecer como banquete, no dia-a-dia, freguesia a freguesia, Jardim tornou-se numa espécie de governante híbrido. Nem se reforma, nem governa.

Anda mais concentrado em encarnar a figura de comentador político residente. Não das asneiradas que por aqui se fazem, mas das reformas que vão sendo ensaiadas em Lisboa. Tem passado os últimos meses a dar palpites que não ficam nada atrás do grupo de aposentados que jogam à bisca nos bancos de jardim do Almirante Reis.

“O corte nas pensões é indecente”, disse, não se sabe bem, se na qualidade de governante ou de cidadão reformado. “Está errado sob a óptica económica e está errado sob a óptica social”, acrescentou com uma sensibilidade que não se viu quando assinou o plano de resgate com a ‘troika’. “O país continua a cometer o erro de diminuir o poder de compra das pessoas, de reduzir a procura e de aumentar os seus encargos com as despesas sociais”, acrescentou o responsável pelo recuo do poder de compra para níveis de há 20 anos na Madeira. “É injusto!”, insistiu o governante que deixa como legado 25 mil desempregados e uma dívida pública de perto de 7 mil milhões de euros para pagar.

O autor de tais injustiças tenta lá em Lisboa descalçar a bota, de forma atabalhoada, é verdade. Começou pelo fim e terminou no princípio - a reforma do Estado - atropelando direitos constitucionais, pressionado pelos credores externos. O governo de Passos Coelho lá vai fazendo o 'trabalho sujo' de ir fechando as portas que outros deixaram aberta, procurando arrumar uma dívida pública que teve outros pais, que estoirou com a economia nacional, com o orçamento familiar e que, de uma vez por todas, temos de por um ponto final para nunca mais repetir, não sem antes conduzir à Justiça todos os responsáveis. A culpa não é dos obreiros da austeridade que vivemos mas de quem permitiu a monstruosidade que pagamos.

Ora, por cá, Alberto João jardim liderou um governo ao longo de 36 anos, criou uma ilha de buracos financeiros, asfixiou o tecido empresarial substituindo-se à iniciativa privada e adulterando a regras do mercado livre, alimentou um governo obeso que privilegiou os lóbis à eficiência administrativa, cultivou a ingerência nas associações, clubes e empresas que fez depender economicamente de si, iludiu todos com a subsidiodependência ‘vendendo’ direitos incomportáveis para aquilo que a Região produz, distribuiu regalias e benesses sem avaliar o retorno do esforço orçamental, beneficiou muita gente que não tinha carência económica alguma e excluiu do sistema outros que realmente precisavam, orientou a sua estratégia de desenvolvimento no crescimento e favoreceu amigos de bancada, construiu grandes infra-estruturas financiadas por fundos comunitários, criou sociedades para subir os tectos de endividamento, iludiu-se na fantasia de que os bancos eram a santas casas da Misericórdia e, quando já não havia dinheiro dos outros para gastar, investiu na carreira de caloteiro, arrastando as empresas fornecedoras para a bancarrota. A bolha rebentou, faltou liquidez para pagar salários aos funcionários públicos, chegou a ajuda externa e Jardim assinou, sem pestanejar.

Todos nós sabemos como chegamos até aqui, embora não deixe de espantar, também às entidades internacionais, que a administração de um território tão pequeno, com duas ilhas próximas habitadas, tenha conseguido a proeza de deixar às futuras gerações um herança tão pesada. O que surpreende a nós, cá dentro, é que numa situação de resgate, quando estamos todos amarrados à bóia, à deriva, o nosso chefe nesta missão de salvamento não indique qualquer rumo e fique para ali, nos seus aposentos, na sua zona de conforto, a comentar a política para além das 200 milhas. Diz que a Madeira não vai aplicar as 40 horas? Pois não. Também não ia aumentar os impostos, nem aplicar taxas moderadoras na saúde, nem mexer no IVA da Madeira, nem... Este governo não governa. Governa-se.