A política fascina-me. A economia também. Pelos termos usados. Pelos verbos. Pela construção das ideias. Pela imaginação. Por exemplo, o comum dos mortais fala em crescimento de uma forma positiva. Mas se for um governante, a palavra “crescimento” ganha toda uma outra dimensão quando não interessa usar linguagem corrente para dizer que houve uma diminuição de qualquer coisa, geralmente daquilo a que chamam um “indicador”. Como por exemplo, a quebra do poder de compra, dos ordenados, do nível de vida, enfim, coisas que tiram o sono e o pão da boca de quem vive do suor do seu trabalho. Adiante. É nestes casos que os eleitos usam a expressão “crescimento negativo”. Devem julgar que dói menos. Ou então tomam-nos por parvos. Lamento a minha exiguidade de conhecimentos que não me permitem compreender as coisas tão belas que dizem, mas realmente era mais útil se usassem uma linguagem de verdade, sem subterfúgios.

Talvez seja por isso que continuo sem entender na globalidade, por exemplo, o conceito de uma coisa que até acho piada: os CoCos. E não me refiro ao conteúdo das fraldas da minha filhota. Refiro-me àquilo que os especialistas chamam de "Contingent Convertible Bonds" (confesso, fui à Net consultar a definição), ou seja, os CoCos, que têm sido um dos meios populares mais usados para fortalecer as finanças dos bancos no contexto da crise financeira de 2008 e na mais recente crise da dívida pública na área do Euro.

Na prática, os CoCos “são uma dívida que se transforma em capital em determinadas circunstâncias”, dizem os especialistas. Ou seja, para uns é uma coisa negativa, mas para outros já pode ser transformada em lucro. Enfim, entre CoCos, Swaps ou outra coisa qualquer com outros nomes exóticos ou sugestivos, parece-me que anda meio mundo a tentar enganar a outra metade. Ora, apoiados por especialistas em finanças, não será por demais evidente que políticos e gestores com responsabilidades públicas têm andado, ao longo das últimas décadas, a brincar ao Monopólio na vida real. Quem paga? Exactamente, os mesmos. Os contribuintes. De lá e de cá. De uma maneira ou de outra.

Poderíamos agora pegar noutra ideia, por exemplo, a dos produtos financeiros tóxicos, aplicando-a no actual contexto pré-eleitoral na Madeira, onde a coisa parece estar também complexa. É. Não há como negar. O que outrora valeu muito e foi 'útil' até certo ponto, hoje é visto como um grave problema até por muitos dos que deles beneficiaram no passado. Antes, com eles não havia problemas. Estava tudo garantido. Era sempre a somar. O crédito que transmitiam dava e sobrava. Era vitória garantida à partida. Até agora. Hoje são cada vez mais os que querem distância deles, com medo de perder valor junto do mercado. São vistos quase como produtos tóxicos.

Curiosamente, as mais recentes movimentações dão a entender que, tal como os CoCos, o que passou a ser visto como uma dívida, um encargo, vá lá, um peso morto, pode rapidamente e uma vez mais ser convertido em capital... político. Desengane-se pois quem acha que este ou aquele político estão acabados, pois o que as pessoas já deveriam ter percebido, até pelo histórico, é que o apego pelo poder é bem maior do que qualquer espécie de sentido de responsabilidade pública. E há quem esteja de vigia, lá em cima, a ver quem está com quem neste momento. Demostrando (uma aparente) fragilidade há quem consiga, tal como o fez no passado, perceber com quem pode contar neste momento de véspera eleitoral. De facto, a política é fascinante. E em política, as aparências, como diz o ditado, iludem. E ainda vão causar muitas (des)ilusões.

Julgo que uma eventual mudança de rumo no destino da Madeira só terá sustentabilidade e força se for através da vontade do povo, e não das máquinas internas dos partidos que funcionam de forma caciquista, muitas vezes contra a vontade dos militantes mais esclarecidos, sempre com vista à perpetuação do poder da classe dirigente. São estes os mesmos aparelhos políticos que propagandeiam a ideia de que para sair da crise a solução passa por confiar nos mesmos que nos levaram exactamente a esta crise. É um pouco como aquela ‘teoria’ do “evite a ressaca, mantenha-se bêbado”. Certamente que a proposta consegue arrancar alguns sorrisos e até seguidores, mas as pessoas mais sóbrias começam a perceber que estão a ser esfoladas para pagar a má gestão das finanças públicas e as políticas económicas erradas. Ainda assim, a decisão cabe à maioria. Mas já se sabe. Só está calado quem está bem instalado.