O governo de coligação, chefiado por Pedro Passos Coelho, tem a sua última oportunidade. Foi-lhe dada pelo Presidente da República depois da instabilidade política criada pelo próprio governo. Cavaco Silva esteve muito bem. Aliás penso que aquilo que foi feito nas últimas duas semanas deveria ter sido feito logo depois das últimas eleições legislativas, há dois anos. Já na altura o Presidente da República deveria ter chamado os três partidos (PSD, PS, PP) e obrigado a um entendimento de “salvação nacional” (já escrevi muito sobre esta necessidade). O País precisa disso. Pena, como vimos, a nossa classe política não estar à altura do desafio. Infelizmente em Portugal os partidos querem todo o poder. Não querem dividir com ninguém. Não identificam as coligações e os acordos como mais valias. É pena. Mas Cavaco Silva tem razão: vai chegar o dia em que os partidos vão concluir - o que nós já concluímos há muito - que são necessários consensos alargados e sérios. Infelizmente a primeira tentativa de consenso não resultou. Tenho dúvidas que o PSD e o PP estivessem genuinamente empenhados num consenso; também o líder do PS não tem força para fazer frente aos socráticos, soaristas e António Costa. Estes dois primeiros são defensores da estratégia terrorista de “quanto pior estiver o País, melhor para o PS”. Uma estratégia primitiva e irresponsável. António José Seguro não conseguiu, infelizmente, fazer frente e nenhuma das alas. Deverá ter perdido em definitivo a sua oportunidade. Nós também vimos, por culpa da nossa medíocre classe política, a perda de uma oportunidade. Mais uma vez vamos ter que esperar. Já quanto à remodelação governamental fez-se (finalmente) aquilo que há muito eu escrevi que deveria ter sido feito: Gaspar para a rua e Paulo Portas o tempo todo em Portugal a fazer o que melhor sabe fazer: política. Quanto à orgânica do governo também escrevi sobre isso: era um governo mínimo (devido ao populismo fácil) mas ineficiente. Agora parece mais funcional. Vamos ver se ainda vai a tempo... O MÉDIO ORIENTE A PEGAR FOGO
O Médio Oriente tornou-se, como nunca, num puzzle explosivo e muito perigoso. Está completamente à deriva e entregue a governos e regimes frágeis apoiados ou contestados por grupos armados. O Mundo parece não estar a dar a devida atenção a este barril de pólvora bem perto da Europa, África e Ásia. O Egito está ingovernável e para nós ocidentais é difícil tomar partido contra os islamitas e apoiar o golpe que derrubou o presidente eleito. É difícil um democrata defender o que se passou. A alternativa é apoiar os islamitas? O mesmo se passa na Tunísia. Na Líbia é o caos. Os grupos que foram apoiados pelo Ocidente na revolução contra Kadafi transformaram-se em grupos terroristas alguns já ligados ao extremismo islâmico. A Líbia está melhor agora? O Iraque e o Afeganistão são dois países ingovernáveis onde o poder do Estado é limitado e muito frágil. A Síria é um país dividido entre grupos armados, um regime sanguinário e sem razão e exércitos apoiados por países vizinhos com aspirações territoriais. O Líbano sofre com a situação na Síria. O que fazer perante este caos perigoso numa zona de grande importância geoestratégica? O melhor a fazer é ouvir todos. Dar a todos importância e nunca optar apenas por uma das partes. É que a razão, neste confuso puzzle, não está só num lado.
LIVRO
Recomendo um dos melhores ensaios que li nos últimos anos. Um pequeno livro da autoria do filósofo Rob Riemen, “O Eterno Retorno do Fascismo”, da Editora Bizâncio. O livro é brilhante. Até podemos não concordar com tudo, mas tudo dá que pensar. Rob Riemen fala, neste pequeno livro, da crise de Valores. Fala do moderno niilismo que põe em causa tudo e que tudo vale nada. Fala da falta de elites. Do fácil populismo político. Da falta de Ética. Um livro que toca nas feridas. Um livro imprescindível para quem gosta de ter opinião ou, pelo menos, gosta de conhecer boa opinião.
Paulo Neves