Sem dúvida uma ilha impõe a sensação de “aprisionamento” Neste período particular em que muitos estão de férias, a condição de ilhéu traz sempre um misto de simultaneamente limitação e liberdade em relação à nossa mobilidade, à vivência de novas experiências, ao contato como novos povos e culturas, à proximidade com outras realidades. Muitas vezes deixamo-nos levar apenas por uma destas perspetivas esquecendo que estamos sempre em presença destas duas leituras e experiências, mesmo que em alguns momentos uma delas possa ser preponderante em relação à outra. A insularidade é realmente uma realidade condicionada pela imensidão do mar que nos rodeia, pela limitação que naturalmente introduz em termos de processos e meios de deslocação para o exterior, pela pequenez que, muitas vezes, limita o nosso quotidiano e atrofia as nossas relações, os nossos sonhos e as nossas vidas. Os tão conhecidos custos da insularidade, a descontinuidade territorial, a falta de recursos naturais básicos, a dependência externa, a grande vulnerabilidade em relação às conjunturas mundiais e o afastamento físico marcam inevitavelmente a nossa existência de habitantes de uma ilha. Viver numa ilha é então uma experiencia que marca a nossa compreensão do espaço e do tempo. Sem dúvida uma ilha impõe a sensação de “aprisionamento”, já que estamos confinados pelos limites do seu território terrestre, mas ao mesmo tempo estar envolvido pelo mar pode significar um grande sentido de liberdade, se imaginarmos que podemos navegar ou partir em qualquer direção. O que nos torna livres numa ilha não é apenas a possibilidade de partir, olhando o mar como horizonte de oportunidades, mas sim a possibilidade do que também pode chegar. É esse mar, tantas vezes, desconhecido que nos une e nos separa. Fala de longe, traz mensagens, permite a relação pois ninguém consegue partilhar a solidão. Do mesmo modo, todos sabemos que a nossa ligação, como país, ao mar ganhou relevância durante a época dos Descobrimentos, que marcou decisivamente o início do processo de globalização. As trocas comerciais, culturais, científicas e tecnológicas resultaram da utilização do mar como meio e estratégia de ligar pessoas, reduzir distâncias, o que marcou definitivamente os processos de transmissão de conhecimentos e de relação entre os povos. No entanto, atualmente, o mar é, para a maioria de nós, algo de distante, intangível e invisível. Neste contexto, é importante neste período de saídas e regressos, olhar a imensidão do mar que nos rodeia, como oportunidade de “desbravar” novos caminhos. Se a nossa experiência humana vive muito de caminhadas, partidas e reencontros, o mar, na sua vastidão (um mar sem fim), surge então como oportunidade de caminho, partida, contemplação, renovação e até de esperança. Neste momento de férias era importante valorizar e desenvolver o sentido “positivo” do mar e das viagens marítimas que ele sugere. Assim, ver o mar como sinônimo de liberdade significa que ele se torna o espaço da nossa mobilidade, que temos oportunidade de nele nos encontramos na limpidez do nosso ser. Podemos então dizer que a identidade insular caracteriza-se pela afirmação de que o único lugar onde a pessoa verdadeiramente se encontra e encontra a sua completa liberdade é no mar. Marco Gomes Director Pedagógico da APEL

Sem dúvida uma ilha impõe a sensação de “aprisionamento”

Neste período particular em que muitos estão de férias, a condição de ilhéu traz sempre um misto de simultaneamente limitação e liberdade em relação à nossa mobilidade, à vivência de novas experiências, ao contato como novos povos e culturas, à proximidade com outras realidades. Muitas vezes deixamo-nos levar apenas por uma destas perspetivas esquecendo que estamos sempre em presença destas duas leituras e experiências, mesmo que em alguns momentos uma delas possa ser preponderante em relação à outra. A insularidade é realmente uma realidade condicionada pela imensidão do mar que nos rodeia, pela limitação que naturalmente introduz em termos de processos e meios de deslocação para o exterior, pela pequenez que, muitas vezes, limita o nosso quotidiano e atrofia as nossas relações, os nossos sonhos e as nossas vidas. Os tão conhecidos custos da insularidade, a descontinuidade territorial, a falta de recursos naturais básicos, a dependência externa, a grande vulnerabilidade em relação às conjunturas mundiais e o afastamento físico marcam inevitavelmente a nossa existência de habitantes de uma ilha. Viver numa ilha é então uma experiencia que marca a nossa compreensão do espaço e do tempo. Sem dúvida uma ilha impõe a sensação de “aprisionamento”, já que estamos confinados pelos limites do seu território terrestre, mas ao mesmo tempo estar envolvido pelo mar pode significar um grande sentido de liberdade, se imaginarmos que podemos navegar ou partir em qualquer direção. O que nos torna livres numa ilha não é apenas a possibilidade de partir, olhando o mar como horizonte de oportunidades, mas sim a possibilidade do que também pode chegar. É esse mar, tantas vezes, desconhecido que nos une e nos separa. Fala de longe, traz mensagens, permite a relação pois ninguém consegue partilhar a solidão. Do mesmo modo, todos sabemos que a nossa ligação, como país, ao mar ganhou relevância durante a época dos Descobrimentos, que marcou decisivamente o início do processo de globalização. As trocas comerciais, culturais, científicas e tecnológicas resultaram da utilização do mar como meio e estratégia de ligar pessoas, reduzir distâncias, o que marcou definitivamente os processos de transmissão de conhecimentos e de relação entre os povos. No entanto, atualmente, o mar é, para a maioria de nós, algo de distante, intangível e invisível. Neste contexto, é importante neste período de saídas e regressos, olhar a imensidão do mar que nos rodeia, como oportunidade de “desbravar” novos caminhos. Se a nossa experiência humana vive muito de caminhadas, partidas e reencontros, o mar, na sua vastidão (um mar sem fim), surge então como oportunidade de caminho, partida, contemplação, renovação e até de esperança. Neste momento de férias era importante valorizar e desenvolver o sentido “positivo” do mar e das viagens marítimas que ele sugere. Assim, ver o mar como sinônimo de liberdade significa que ele se torna o espaço da nossa mobilidade, que temos oportunidade de nele nos encontramos na limpidez do nosso ser. Podemos então dizer que a identidade insular caracteriza-se pela afirmação de que o único lugar onde a pessoa verdadeiramente se encontra e encontra a sua completa liberdade é no mar.

Marco Gomes Director Pedagógico da APEL