O Outono já lá vai. E enquanto os seus ventos foram desprendendo as folhas das árvores, parece que a nossa alma ficou despenteada. Chegamos ao Inverno a tiritar, moídos por dentro pelo escuro dos dias. Apetece dormir. Parece acolher-nos o mesmo torpor e obscuridade das cavernas primitivas. Se este fosse o teu tempo eterno, como poderia explicar-te como agora a vinda das cegonhas, as mimosas, o pintar das cerejas, as andorinhas a cruzar os céus. Os dias infindáveis e quentes das praias, com aquelas canções banais que se nos metem no ouvido? No entanto, eu gosto do Inverno. Deste tempo caprichoso e húmido. Das casas com os seus mistérios e penumbras. O fiolho resguardado. Os retratos familiares atentos e observadores. Gosto das adegas, com as arcas e as pipas cheias. As alfaias agrícolas a repousarem. Das teias de aranha nos caibros que sustêm os velhos soalhos. Das tranças das cebolas e dos presuntos pendurados na parede. Gosto de ver a luz baça a descer das clarabóias. Gosto de ver a água a transbordar dos leitos. Do verde a explodir dos lameiros. Dos néons abertos na brusquidão da noite das cidades. Gosto do cheiro do café à porta das pastelarias. E dos cafés das vilas da província barulhentos nos domingos à tarde. E de chegar cedo a casa e acender a lareira, deixar-me ir no encantamento do lume. Gosto de chegar ao Natal sem me aperceber.
Renata Camacho