Uma das primeiras declarações do novo ministro dos Negócios Estrangeiros, talvez mesmo a primeira depois de tomar posse, foi para denunciar aquilo que considerou “uma certa podridão dos hábitos” da classe política portuguesa. Rui Machete defendia-se assim das referências ao seu nome ligado ao escândalo do BPN. Poucos dias depois soube-se que, sem indícios de ilegalidade, Rui Manchete ganhou muito com a venda de acções à SLN. Uma das primeiras decisões de Pedro Passos Coelho, depois de aceitar a demissão de Vítor Gaspar, foi anunciar Maria Luís Albuquerque como sucessora do ministro das Finanças. Poucos dias depois voltou à tona a participação e o conhecimento da ministra nos famosos contratos ‘swap’ que afectaram a economia portuguesa. Uma das primeiras opções de Maria Luís Albuquerque foi nomear Joaquim Pais Jorge secretário de Estado do Tesouro. Poucos dias depois soube-se que o desconhecido governante estava antes profissionalmente ligado a um banco que tentara vender produtos a Portugal para baixar artificialmente o défice. Uma das primeiras decisões de Joaquim Pais Jorge depois de conhecida a notícia, foi demarcar-se completamente. Disse que não sabia de nada, que não viu, nem estava lá. Numa ridícula conferência de imprensa, atrapalhado, o secretário de Estado disse tão convictamente uma coisa como exactamente o seu contrário. Uma das primeiras notícias depois da polémica e longa queda do ex-ministro Miguel Relvas, foi para se saber que vai ser Alto Comissário da Casa Olímpica da Língua Portuguesa. Logo ele, um ex-governante e ex-licenciado com créditos alheios a dar palpites sobre a língua de Camões. Sempre a descer nesta escadaria vertiginosa rumo à ilha, resta acrescentar que depois de ter defendido que “deve haver pelo menos dois jornais diários na Madeira”, um dos primeiros actos do presidente do Governo Regional foi, numa cerimónia pública, rasgar a edição impressa do DIÁRIO de ontem. Um acto infantil e rasteiro, indigno de um chefe de governo, de um membro do Conselho de Estado. Jardim, com os anos que leva disto, já deveria saber que até pode rasgar quantas edições quiser que apenas rasga o papel, mas não rasga a palavra nem a verdade, por mais crítica e desconfortável que seja. Estes e muitos outros casos bafientos e burlescos da vida política portuguesa - repleta de gente que rasga compromissos, que rompe com a verdade, que estoira milhões, que pisa princípios, que escamoteia valores - deixam-nos a sensação de impotência perante pequenas loucuras ou declarações gratuitas. Aos cidadãos com plenas capacidades mentais resta pouco mais do que assistir a estas baixarias com a esperança de que um dia será possível rasgar esta podridão de hábitos que domina a classe que pensa que domina o pensamento alheio.