Quantas rosas caem em toda a parte : rosas azuis, rosas brancas, rosas sem cor…Dir-se-ia que o céu se desfaz em rosas: olha para mim… Que farei com tantas rosas?

Sabes, acaso, de onde é esta branda flora que eu não sei de onde, é - , que todos os dias enternece a paisagem e a deixa docemente rosada, branda sete e azul-celeste - mais rosas, mais rosas - sabes a história de um quadro de um artista que só pintava o céu de joelhos? E que arremessava das galerias do Paraíso pétalas para a terra? Encantamento.

Que pura, e que bela, esta flor do caminho! A seu lado passam todos os tropéis - , e ela, tão terna e tão débil, continua de pé, verde e fina, no triste valado, sem se contaminar com nenhuma impureza. Quando, ao começar a encosta, metemos pelo atalho, todos os dias a verás no seu posto verde. Já tem ao seu lado um passarinho, que se levanta - porquê ? - quando nos aproximamos, ou está cheia, como uma pequena taça, da água clara de uma nuvem de estio, já consente o roubo de uma abelha ou o volúvel adorno de uma mariposa. Esta flor viverá poucos dias; mas a sua lembrança será eterna. A sua vida será como uma dia da tua Primavera, como uma primavera da minha vida. Ai! Quanto eu daria ao Outono, em troca desta flor divina, para que ela fosse diariamente o exemplo simples da vida?

Alguém toca harpa.

A melodia é lenda, um pouco hesitante, mas tão bela…O crepúsculo roseia o céu, o voo das aves declina e abranda, as suas asas descrevem movimentos amplos e cheios de indolência. Balouçam-se no ar húmido e rosado que cheira a erva cortada, a resina e giesta, .E também o odor que se eleva. E também o dos pomares onde os ramos das árvores vergam mansamente sob a carga dos frutos. E ainda o dos jardins onde as flores fecham devagarinho as pétalas sobre o seus corações amornecidos Por vezea, vêm-se abelhas. amodorradas as pétalas no seio desta aquosidade douradas. Não Alguém levarão a sua colheita de suco à colmeia. Deitadas, leves, sobre o flanco, deliciosamente ébrias de açúcar e labor, elas adormecem nos seus leitos de pistilos, envoltas num sonho de mel. E a morte abate-se num arrepio sedoso em torno dos seus corpos franzinos que tombarão, mais tarde, sobre a madeira de uma mesa ou sobre um paninho de renda quando se tiverem quando se tiverem apanhado as rosas para as dispor em ramalhetes nas jarras. Os seus despojos resvalarão sem um ruído do coração das rosas floridas no Verão e que se desfolham no Outono. Como lágrimas fósseis de luz, hão-de brilhar de um resplendor surdo ao pé dos ramalhetes de Setembro.

É o fim do Verão. Um fogo de sarças e de silvas arde sobre um talude. O seu fumo rasteja ao rés da erva em espirais azulinas. Os outros cheiros. O seu odor recobre todos os outros cheiros. Os animais ainda têm o coração em sobressalto lá ao fundo dos prados. Fariscam o ar da tardinha, o odor que sobe dos pântanos e o do lume de sarças que o vento lhes traz. Às vezes, um deles lança um balido indeciso, e a sua voz plangente parece surdir sempre dos confins da terra, do medo - enfim, - da piedade. Um débil som de harpa.

Renata Camacho