Já abordei o Verão dedicado ao Douro, ao verde agreste e doce, e aos odores e sabores intensos e carregados de afetos e memórias inesquecíveis. Estas vivências, que engrandeceram a minha existência, estão essencialmente ligadas ao meu pai e à relação cúmplice e intensa que mantínhamos, que guardo até hoje no coração e na essência da minha vida. Sempre foi uma relação tranquila e pacífica. Era um homem firme, terno e tinha um lado infantil que partilhava com orgulho. Quando me ensinava as suas canções de vida e as entoávamos em conjunto, entre o chilrear dos pássaros e o leve ruido das folhas quando dançam com o vento, soltava-se uma magia de ligação que nos unia num laço sem nós asfixiantes. Havia respeito, amor e liberdade. Liberdade no sentido de aceitação do espaço e da personalidade de cada um. Às vezes nem eram precisas grandes palavras. Entre nós o silêncio tinha um grande significado. Horas a contemplar o que nos rodeava ou simplesmente a ouvir música e a ler. Quando o acompanhava nalguns programas desportivos, envolvia-me no espirito e aprendi a vibrar com os golos e as vitórias, enfim, a apreciar o universo masculino. Com ele sentia-me segura, cada passo era uma conquista. Os riscos iam diminuindo e da mão na mão e do braço no ombro, fomos passando para o sim e não, negociados num clima onde a confiança era um valor indiscutível. Sem intromissões constrangedoras, sempre senti a sua presença nos momentos de alegria e o seu conforto nas tristezas. Esta é a imagem que guardo do meu pai que eu amei da forma mais clara e transparente que conheço em mim. Perdi-o, pensava eu, exatamente no meu primeiro esgar de autonomia adolescente, nas primeiras férias entre amigos. Ninguém nos prepara para a morte e aqui ele falhou, porque não me preparou. Tudo parecia estranho e esquisito. Nos bons e maus momentos ele já não estava lá. Com quem ia eu partilhar os golos e as vitórias, quem ia agora segurar a minha mão quando eu já achava que não precisava de quem a segurasse. E o que iria eu fazer com tantas coisas que ficaram por dizer. Na altura dava tudo para voltar atrás, só uns diazinhos, podia ser que desse para tornar realidade todos os sonhos que o incluíam. Mas os dias, os meses, os anos foram passando e eu encontrei outras formas de o manter na minha vida, as possíveis. Afinal ele continuava lá, no meu sangue na minha genética, na minha memória e naqueles pedacinhos que servem de encaixe, essenciais no decurso de qualquer construção. Os lutos fazem parte da vida, e mesmo quando percebemos que alguns deles nos fortalecem e ajudam a crescer, se pudéssemos evitá-los não hesitaríamos. Fui conhecendo na vida pessoas muito especiais com quem continuei o meu percurso. Muitas ainda hoje estão próximas do coração, enquanto outras se perderam noutros lutos ou apenas nas circunstâncias da caminhada. Mas não há ninguém que marque a nossa vida que desapareça sem deixar marca. O Verão, as noites quentes com cheiro a terra queimada, as cerejas roubadas das árvores, os passeios interrompidos pelo fresco das sombras, o regresso a casa com o cheiro a pão de lenha e guisados gostosos, as sestas entre cães e gatos, os sonhos de olhos bem abertos para que sono nenhum os levasse, são momentos que guardo, com um carinho e amor que tenho como certo que não os revivo sozinha. Boas férias!
Memórias de Verão
Os lutos fazem parte da vida, e mesmo quando percebemos que alguns deles nos fortalecem e ajudam a crescer