Cidadãos depauperados “ficam demasiado absorvidos nas suas preocupações diárias sem tempo sequer para conspirar”. Aristóteles (384 - 322 a.C.) in Política Contestação interna
Nos últimos tempos, assistimos a uma tentativa frustrada de “acordo de salvação nacional”; realizaram-se greves gerais e manifestações de vários grupos sociais contra o governo, devido às medidas de austeridade, além das constantes críticas dos partidos da oposição. Aparentemente, esta situação nada tem de novo. Em todos os países a oposição, por regra, critica o governo, mesmo quando concorda com as medidas adotadas. É a própria natureza da política que assim o dita.
Elogios externos
A nível externo, pelo contrário, constatamos um coro de elogios e apoios às medidas do governo português: quer por parte da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional, além de outros apoios, como do presidente dos Estados Unidos e da presidente da Alemanha, entre outros.
Perspetiva de Aristóteles
Para este mestre do pensamento, que viveu no séc. IV a.C., há governos que preferem sentar-se à mesa e ter por companhia os estrangeiros, preferindo-os aos concidadãos, por acreditar que estes são seus inimigos enquanto os primeiros se não se lhe opõem. O mesmo mestre diz que, por vezes, os próprios governos têm interesse em semear a desconfiança entre os concidadãos. Por esse motivo, “movem constantes ataques aos cidadãos respeitáveis: consideram-nos perigosos para o poder”. A razão é simples: o poder nunca será derrubado, se os cidadãos não se confiam entre si. Diz, também Aristóteles, que alguns governos tentam depauperar os cidadãos. Deste modo, estes “ficam demasiado absorvidos nas suas preocupações diárias sem tempo sequer para conspirar”. Mais acrescenta, que “a este procedimento podemos acrescentar o incremento de impostos”. E aponta exemplos concretos, como o que “sucedeu em Siracusa, onde os cidadãos no tempo do tirano Dionísio viram toda a sua fortuna convertida em contribuições, durante cinco anos consecutivos” (idem p. 419). É certo que, a nível material, a sociedade evoluiu desde Aristóteles. No entanto, os aspetos essenciais da conduta humana, social e política, mantém-se inalteráveis. Se aquele pensador regressasse ao mundo, neste momento, certamente iria pensar que os governos e oposição continuam como no séc. IV a.C.: a nível interno predomina a crítica, e a nível externo o elogio e apoio. Quanto aos cidadãos, como sempre, permanecem absorvidos nas suas preocupações diárias, sem tempo de se preocupar na política.
* Procurador da República no TAF de Loulé.
João Luís Gonçalves *