Os incêndios que nos últimos dias ocorreram na Madeira, quer em zonas florestais quer em áreas de grande densidade de residências e actividades sócio-económicas, de que resultou, lamentavelmente, a perda de uma vida e danos materiais em casas, equipamentos e terrenos de propriedade privada e pública requerem um olhar atento mas, ao mesmo tempo pragmático, fugido da tentação imediatista de procurar culpas de cuja identificação se tira todo o tipo de proveito menos o que mais importa quanto ao assunto em concreto. Numa visão assumidamente sem qualquer pretensão ou presunção técnica é visível a grande capacidade de resposta das estruturas de coordenação e operações ao nível da protecção civil. Os bombeiros madeirenses, com todas as dificuldades e limitações, acrescentam, hoje, ao enorme empenho de sempre, mais competência e maior capacidade de intervenção, a que se junta uma impressionante e efectiva coordenação com outros serviços, entidades e forças de segurança que permitiu, por exemplo, que a operação de evacuação do Hospital dos Marmeleiros se tenha processado com uma fluidez, segurança e velocidade impressionantes, atendendo a que ao mesmo tempo nas proximidades decorriam intensos combates da várias frentes de fogos que devastavam áreas florestais e residenciais onde também se procedia a evacuações e outros tipos de apoio directo às pessoas. Notável, competente e eficaz toda a actuação ao nível da protecção civil, mostrando que os planos, bem elaborados, também são bem aplicados no terreno e nas piores circunstâncias. Parabéns a todos. Pouco mais há a fazer neste domínio da resposta às situações de crise, a não ser manter a prontidão e disponibilidade de meios humanos e materiais, sendo naturalmente necessária a rápida reposição dos equipamentos perdidos ou danificados de modo a garantir a mesma capacidade de resposta em casos futuros. Onde se pode e deve trabalhar mais é no domínio da prevenção e fiscalização mas, em particular na primeira. Temos que melhorar e reforçar muito a nossa cultura colectiva de prevenção. Desde logo reduzindo a zero a tolerância face comportamentos negligentes e irresponsáveis que podem transformar-se em origens de fogos. Na escola, em casa e na sociedade em geral, há que consolidar e dar mais importância à vigilância das situações que podem potenciar riscos. A limpeza de terrenos, não apenas os florestais, os comportamentos de risco como fogueiras não controladas ou mesmo o lançamento de foguetes em dias de incêndios como se verificou ainda a semana passada quer no Monte quer em Santo António, são situações que temos, de uma vez por todas, que ser capazes de parar. Um outro aspecto que me parece merecer mais atenção tem a ver com a vigilância profissional. Para alem da atenção da parte dos cidadãos que devem colaborar com as autoridades aquando da observação de focos de incêndio no seu início, não seria de todo descabido se, em momentos particulares de maior risco, contássemos com a colaboração da Defesa Nacional, de modo profissional na vigilância e, se necessário, com patrulhamento, em zonas sensíveis como as florestas nas imediações de áreas residenciais. Do mesmo modo que temos, e muito bem, a Policia Florestal, no Natal a controlar o acesso e utilização de certas áreas, de modo a garantir que a floresta não é destruída ou roubada por via da procura das típicas árvores de Natal, porque não ter também as forças de segurança e de defesa nacional a controlar os acessos e usos de áreas susceptíveis de fogos?. Era um serviço de reforço à prevenção, para o qual até estas entidades estão treinadas e cuja competência também lhes cabe pois o fogo destrói a terra e a terra é a pátria.
António Domingos Abreu Biólogo