Ousemos ter a esperança de que também caberá aos intelectuais nascidos da nova ordem o papel de fundar novos saberes Ahistória cultural do Ocidente formou uma ideia específica acerca do que era ser intelectual. Com o passar do tempo, o conceito foi sofrendo evoluções, muito condicionadas por modas sapienciais. Em quase todos os casos, porém, a definição acabou por se cingir à ideia de que o intelectual era uma personalidade insigne e até visionária, detentora de conhecimentos e de competências excelentes no seu domínio de saber, sem deixar de possuir vastíssimos conhecimentos noutras áreas. A esta capacidade não disjuntiva, o intelectual juntava a crítica da sociedade, não necessariamente censória, mas determinante para a fixação do estatuto que lhe permitiu desenhar parte fundamental da cultura e das ideologias que marcaram o séc. XX. Paralelamente, viu-se confrontado com o paradoxo, também ele ideológico, de confinar ou de integrar o campo elitista da chamada alta cultura. Nesse sentido e recorrendo aqui a uma aproximação inevitavelmente reducionista, o intelectual tradicional estava comprometido com a sociedade dominada pelo poder do conhecimento que advinha sobretudo da cultura fundada na tecnologia do livro, cujo acesso era restrito e dispendioso. Com a emergência da sociedade de informação, de que um dos fundadores foi o genial Claude Shannon, com a sua teoria matemática da comunicação, passámos a aceder, genericamente de forma mais fácil e com menores custos, a um conjunto gigantesco de dados. Os dados são, neste contexto, a primeira condição para a construção das sociedades de informação e de conhecimento. Não significa isso que, de igual modo e com idênticas oportunidades e circunstâncias, todos consigam percorrer as etapas do processo que vai da obtenção de dados à criação de conhecimento. Em todo o caso, é importante ter em conta este tipo de evolução para o questionamento do papel dos intelectuais na nossa sociedade. Sabemos que o livro e as anteriores estratificações socioculturais engendraram o intelectual da alta cultura. A revolução operada pelas tecnologias de informação e comunicação fez perigar esse modelo icónico. Valoriza agora a produção em massa de produtos culturais, intensamente sujeitos às leis da oferta e da procura, e à redução do tempo necessário para a reflexão e a investigação aturadas. O conhecimento parece ser diferente, mais fragmentário, menos estruturado e quase nada ideológico. Estas marcas não devem, contudo, desmerecer o nosso mundo, nem os intelectuais que vai produzindo. No futuro, os intelectuais serão distintos dos da alta cultura, mas mais consonantes com a dinâmica do seu tempo. Assistimos noutras épocas a transformações deste género. As intelectualidades sempre tiveram oportunidade de surgir e de registar o seu traço na superfície das culturas. Como o futuro é apenas um suposição de (im)possibilidades, ousemos ter a esperança (incluindo até a esperança literária do desassossegado Pessoa) de que também caberá aos intelectuais nascidos da nova ordem o papel de fundar novos saberes, de formular sínteses e de fazer a crítica dos sistemas. Sílvio Fernandes

Ousemos ter a esperança de que também caberá aos intelectuais nascidos da nova ordem o papel de fundar novos saberes

Ahistória cultural do Ocidente formou uma ideia específica acerca do que era ser intelectual. Com o passar do tempo, o conceito foi sofrendo evoluções, muito condicionadas por modas sapienciais. Em quase todos os casos, porém, a definição acabou por se cingir à ideia de que o intelectual era uma personalidade insigne e até visionária, detentora de conhecimentos e de competências excelentes no seu domínio de saber, sem deixar de possuir vastíssimos conhecimentos noutras áreas. A esta capacidade não disjuntiva, o intelectual juntava a crítica da sociedade, não necessariamente censória, mas determinante para a fixação do estatuto que lhe permitiu desenhar parte fundamental da cultura e das ideologias que marcaram o séc. XX. Paralelamente, viu-se confrontado com o paradoxo, também ele ideológico, de confinar ou de integrar o campo elitista da chamada alta cultura. Nesse sentido e recorrendo aqui a uma aproximação inevitavelmente reducionista, o intelectual tradicional estava comprometido com a sociedade dominada pelo poder do conhecimento que advinha sobretudo da cultura fundada na tecnologia do livro, cujo acesso era restrito e dispendioso. Com a emergência da sociedade de informação, de que um dos fundadores foi o genial Claude Shannon, com a sua teoria matemática da comunicação, passámos a aceder, genericamente de forma mais fácil e com menores custos, a um conjunto gigantesco de dados. Os dados são, neste contexto, a primeira condição para a construção das sociedades de informação e de conhecimento. Não significa isso que, de igual modo e com idênticas oportunidades e circunstâncias, todos consigam percorrer as etapas do processo que vai da obtenção de dados à criação de conhecimento. Em todo o caso, é importante ter em conta este tipo de evolução para o questionamento do papel dos intelectuais na nossa sociedade. Sabemos que o livro e as anteriores estratificações socioculturais engendraram o intelectual da alta cultura. A revolução operada pelas tecnologias de informação e comunicação fez perigar esse modelo icónico. Valoriza agora a produção em massa de produtos culturais, intensamente sujeitos às leis da oferta e da procura, e à redução do tempo necessário para a reflexão e a investigação aturadas. O conhecimento parece ser diferente, mais fragmentário, menos estruturado e quase nada ideológico. Estas marcas não devem, contudo, desmerecer o nosso mundo, nem os intelectuais que vai produzindo. No futuro, os intelectuais serão distintos dos da alta cultura, mas mais consonantes com a dinâmica do seu tempo. Assistimos noutras épocas a transformações deste género. As intelectualidades sempre tiveram oportunidade de surgir e de registar o seu traço na superfície das culturas. Como o futuro é apenas um suposição de (im)possibilidades, ousemos ter a esperança (incluindo até a esperança literária do desassossegado Pessoa) de que também caberá aos intelectuais nascidos da nova ordem o papel de fundar novos saberes, de formular sínteses e de fazer a crítica dos sistemas.

Sílvio Fernandes