A Madeira da minha infância fervilhava por todo o lado. Os verões passados nas praias, as estreias nos cines Parque, Jardim, Casino, Santa Maria, no João Jardim, mais tarde no D. João, os concertos, as peças de teatro no Teatro Municipal, as matinés aos domingos e o ballet. Enfim, existia uma grande atividade numa região em constante movimento. Foi no dealbar das grandes obras, das novas estradas, da eletrificação de muitas zonas rurais, do fomento das atividades desportivas. Foi o tempo das inaugurações diárias, do frenesim do governo pela Madeira fora, das espetadas em pau de louro e do fogo de estalo. O dinheiro aparecia, proveniente de Lisboa ou de Bruxelas. Havia que mostrar a obra a uma população maioritariamente pobre e pouco instruída. No tempo das vacas gordas os problemas estruturais que surgiam iam sendo varridos para debaixo do tapete. A Região começava a ter escolas por todo o lado, pavilhões desportivos, centros de saúde e becos alcatroados. Os políticos que dominavam, com Jardim à cabeça, estavam na sua máxima força. Quem se importava com a imagem da Assembleia Regional ou com as críticas de algum presidente de câmara mais atrevido? A maioria fazia o seu caminho, com muitos excessos à mistura, pouco respeito pela oposição e pelos que ousavam questionar o caminho que estava a ser seguido. Importava construir, fazer e mostrar ao povo, ávido de festa. No imediato. Pão e circo no seu esplendor. As férias de Jardim constituíam a animação burlesca estival. Em agosto, as televisões instalavam-se no areal do Porto Santo e todos os anos um grupo considerável de jornalistas cobria o passeio, o mergulho e os excessos de Alberto João e muchachos na badalada tasca do Henrique. A casa de função do governo da ilha Dourada já albergava o presidente, os secretários, os diretores e os amigos. Tudo a um preço simpático (hoje serão 20 euros/dia), com corte de ténis incluído. A população consentia. Afinal havia obra e a vida melhorava, mesmo que se fosse construindo, em paralelo, um monumental calote. Atualmente tudo é uma imagem pálida desses anos enganadoramente dourados e rebeldes. Ninguém nega a obra, mas questiona-se a sua utilidade e prioridade, criticam-se os excessos e a perpetuação de uma política pouco previdente e esbanjadora. Já ninguém tem paciência para o espetáculo deprimente em que se enredou o parlamento regional, ninguém informado consente que meia dúzia de privilegiados se aproprie dos bens públicos para disfrutarem das suas férias e já ninguém acredita na cassete utilizada para justificar o fracasso de uma política desleixada, que mostra agora os seus frutos, materializados num quadro social negro. Ao povo exige-se todos os sacrifícios, mas essa classe política não sacrificou nenhum dos seus interesses ao longo destes anos. No meio da trapalhada generalizada as carinhas de sempre, mais velhas e trémulas, mas leais e agarradas ao cargo. Do diretor da escola, ao diretor do serviço hospitalar, passando pelo chefe da repartição. Todos continuam a bater a pala ao comandante (até ver), que este ano subiu de novo ao arraial do Chão da Lagoa para metralhar em tudo o que mexe, sem apresentar uma ideia de futuro, uma estratégia, um caminho. Caro leitor, respire fundo. Estamos em agosto, mês calmo e sossegado. Mesmo sem o fausto de outros tempos aproveite e descanse, dê um mergulho e retempere forças. Daqui a dias regressaremos à realidade, à dívida e à austeridade que, tudo aponta, irá aumentar.