Em cada pegada firme deixada na areia da praia, junto de tantas outras legadas por gente de passagem, que carrega em si tanto o peso dos dias como dos sonhos, e por outras tantas que vão vazias de si mesmas. Nos corpos estirados, abrasados do sol, ora inclemente ora envergonhado, mas presente. Na retouça de miúdos e graúdos à roda da maré, de gritinhos entre o assustado e o expectante ao avistar-se uma onda de maiores proporções. E quando o calor aperta, furar este mar, experienciar o corpo lavado de preocupações por breves instantes, e assim salgar no corpo estes dias a conservar. No enterrar da boca numa fatia de melancia, que dá cheiro à maré vazia, e no saborear de uma “escadinha” de uvas e uns figos de mel. E no voluntariamente tomar parte do carreiro de “formigas” que se avoluma minuto após minuto rumo à “lambeca”. Nas noites calmas de luar branco espalhado nas dunas, de conversas que decorrem e discorrem fluídas, banidos os relógios, à exceção do da Piedade que marca o dia-a-dia a compasso. No “passeio” cheio e nas esplanadas completas, em que se revisitam caras conhecidas de tantos anos e descobrem-se outras tantas estreantes nestas andanças. Nas noites frenéticas, de corpos ondulantes ao sabor da música, de olhares que se cruzam e de sorrisos que se oferecem, do bater dos corações em uníssono. No amanhã que surge num ápice e do ontem que passou a correr. Paradoxalmente parece que o tempo se suspende e se detém. É outro tempo, o nosso tempo. Sentir o Porto Santo. No alto da Senhora da Graça, do qual procedem garbosos de capa vestida os irmãos da confraria, seguidos pela multidão volumosa em número e em fé, que a custo evoluí em direção à ermida, de onde fustigados pelo vento acenam os álamos à passagem da virgem rosadinha. Sentir o Porto Santo. No Agosto que é tanto do nosso gosto. Em cada grão de areia que se cola ao corpo, como se esta nossa praia não nos quisesse deixar nunca mais.
Renata Sousa Vereadora da oposição