De 27 a 28 de Junho decorreu no Tecnopolo um encontro de técnicos com reconhecidos méritos na área das ciências do mar. O encontro organizado pelo CIIMAR-Madeira (Centro Interdisciplinar de Investigação Marina e Ambiental), foi promovido pela plataforma ‘Semear Futuro’, liderada pelo eurodeputado madeirense Nuno Teixeira, e pela recém-criada ARDITI – Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação. Para além de propiciar um diálogo aceso e construtivo entre os participantes, o encontro tinha como principal objetivo estimular uma discussão em torno das oportunidades que podem surgir no âmbito do próximo programa quadro de financiamento europeu de ID&T ‘HORIZON 2020’. Uma das principais conclusões do encontro foi a de que temos que fazer um esforço para criarmos sinergias regionais de forma a ganharmos maior expressão internacional. Num território insular a ‘união faz (efetivamente) a força’. Por outro lado, para obtermos maior visibilidade internacional e nos colocarmos como parceiros ‘privilegiados’ em projetos de ID&T europeus, particularmente no âmbito dos novos desafios do ‘Horizon2020’, teremos de garantir a qualidade, visibilidade, mantendo simultaneamente uma expressão regional relevante. Para isso necessitamos de: i) promover a excelência na investigação científica; ii) aumentar a visibilidade dos trabalhos desenvolvidos na Região; iii) acrescentar mais valor à economia do mar, respondendo aos desafios e necessidades da Região. Por outro lado, julgo que isso só será possível se ganharmos massa crítica e se nos organizarmos em torno de um tema diferenciador. É imperativo que investigadores e instituições de renome adiram a uma causa regional e que nos ajudem a promovê-la internacionalmente. Julgo que ficou igualmente patente no ‘simpósio do mar’ que complementarmente à participação numa ‘Estratégia Nacional para o Mar’, é necessário estimular o desenvolvimento de um plano regional de ID&T adequado à Região. Como configura na História da Autonomia, muitas vezes as potencialidades e valências regionais nem sempre são assumidas como prioridades nacionais. Os participantes acordaram em propor às entidades regionais e internacionais a organização do ‘Observatório Oceânico da Madeira (OOM)’. A Madeira, pela sua posição geoestratégica na saída e entrada do Mar Mediterrânico, no meio ‘Atlântico Profundo’, pode ser considerada como um observatório natural de fenómenos oceânicos. Por aqui passam correntes oceânicas de superfície com origem na Flórida (EUA), correntes de profundidade intermédia com origem no Mar Mediterrânico (onde vive e é capturado o peixe-espada), e correntes profundas com origem no Continente Antártico. No entanto, a observação do mar profundo oferece desafios de igual magnitude à exploração do espaço interestrelar, pelo que o uso e desenvolvimento de novas tecnologias se torna fundamental para a geração de conhecimento. Por outro lado, os fenómenos costeiros são muito dependentes da dinâmica oceânica, pelo que não se pode desacoplar a costa do oceano circundante. O mar profundo está a escassas centenas de metros da costa das Ilhas. Oportunisticamente, estes ‘rochedos’ no meio do Oceano Atlântico podem servir de plataformas de lançamento, para viabilizar sistemas de monitorização climática. É conhecido o papel das correntes oceânicas como moderadores do clima do Planeta, tem sido amplamente discutido na literatura científica o papel do derrame de Águas Mediterrânicas para a bacia Atlântica, na manutenção da ‘circulação termohalina’ e ‘abissal’. Muitos são também os trabalhos científicos discutindo o impacto climático da paragem da circulação abissal do Oceano Atlântico devido ao aquecimento global. Estando nós na confluência de vários fenómenos oceânicos com impacto planetário, porque não assumirmos um papel preponderante facilitando a observação dos mesmos, com a criação de um observatório em colaboração com parceiros internacionais de referência? Porque não assumir o mar como uma extensão das ilhas, em vez de o considerar como um limite territorial ? O mar tem vindo a ser um tema amplamente discutido nos últimos tempos. No entanto, muitos dos debates a que tenho assistido pecam pela falta de conteúdo técnico e consequentemente pela falta de realismo no seu potencial de concretização. Bem sei que de ‘cientistas, médicos e de loucos todos temos um pouco’, mas deixemo-nos de ilusões; o oceano é um sistema natural complexo e por isso o seu conhecimento requer uma abordagem técnica multidisciplinar. Sem conhecimento dificilmente promoveremos inovação, comprometendo os estímulos necessários para o desenvolvimento da economia do mar. Por analogia à exploração do espaço, e sem detrimento do valor efetivo de cada profissão, não são os economistas a determinar a forma e os meios que se devem utilizar para explorar o espaço interestrelar. Os taxistas não conduzem aviões, nem os pilotos trabalham como corretores da bolsa. Cada ‘macaco no seu galho’, e com rigor, seriedade e em conjunto se atingirá o progresso!

Rui Caldeira Investigador/Docente Universitário