A pensar no actual momento político e na possibilidade, finalmente, de surgirem alternativas sérias na representatividade dos cidadãos da Região Autónoma da Madeira ao nível do poder local, dei comigo a recordar-me de uma frase de um colaborador habitual do meu pai, o popular ‘Pára Pedro’ (alcunha) que me dizia cada vez que se achava no direito de receber uma contrapartida pelo trabalho realizado, ou outra qualquer benesse, “então eu também não sou filho de Deus?”. Ou seja, eu também não tenho direito de participar nessa partilha de dádivas, ou de compromissos, tal como outros colegas trabalhadores como eu ou mesmo dos meus empregadores? De facto, depois de quase 40 anos de governação da Madeira pelo mesmo partido ao nível regional e local, criou-se a ideia no pensamento colectivo que só o PSD e quem a ele estiver ligado, sabe e deve governar, como se os seus seguidores tivessem nascido predestinados para tal, ao contrário dos que só sabem ser governados e a quem cumpre obedecer, como se fossem esvaziados de capacidade crítica e do saber agir enquanto ‘eleitos’ de Deus e da sociedade. A partir daí é fácil actuar em conformidade, ou seja, desprezar quem se acha que não merece ser eleito, porque nasceu para obedecer e cumprir as regras e os comportamentos ditados por ‘quem sabe’. Será isto uma atitude democrática? Certamente que não, e a prova é que quando mudam os protagonistas enquistados pelo tempo e pelo abuso de poder, surgem novas ideias, novos métodos de trabalho e novas formas de gerir o colectivo trazidas pelo empenho e a ‘frescura’ mental de quem chega de novo á governação, beneficiando os cidadãos em geral e os que foram preteridos pelo poder instalado, em particular. Porque, ninguém é Deus entre os homens, por definição, antes somos iguais na condição humana e nas oportunidades que nos são proporcionadas, pelo que, acreditar ou proceder em contrário, só faz desenvolver personalidades intolerantes e capazes de espezinhar qualquer laivo de liberdade ou de pensamento critico que se oponha ao pensamento e á prática dominantes. É dessa visão redutora que temos de livrar-nos nos próximos actos eleitorais na Madeira porque o discurso habitual já não convence e as acusações de ‘traidores’, ‘incultos’, ‘medíocres’, ‘tontos’ e ‘patas rapadas’, etc., só servem para disfarçar a intranquilidade de quem governa com mão de ferro e o receio de ser apeado do poder que habilmente manipulou e dele tirou proveito para si ou para ‘os seus’, os que sempre mostraram fidelidade e alinhamento às suas teses. Então será caso para dizer, “não somos todos filhos de Deus”, não seremos nós que nos opomos, capazes, também, de amar o povo a que pertencemos e representá-lo em prol de um evoluir colectivo, mais competente e mais justo? É o desafio que temos, oposição e desiludidos do poder, pela frente. E, a acreditar no que vê, na crescente onda de cidadãos madeirenses a libertar-se do medo e da dependência, já não seremos tão poucos assim.
Nuno Jardim Fernandes Gestor