Eleições. Dinheiro do Estado. Partidos. Dinheiro do Estado. Candidatos. Dinheiro do Estado. Votos. Dinheiro do Estado. Governo. Dinheiro do Estado. Empregos. Dinheiro do Estado. E por aí abaixo... Primeiro que tudo: agora mais do que nunca, o dinheiro não é do Estado. É dos contribuintes, dos trabalhadores que descontam. É nosso. Sobretudo nesta altura, não é coisa que se queira desbaratar. Em segundo, admito que esta visão possa parecer exageradamente economicista. Ou pior: ser favorável a partidos bem identificados, porque são os que estão agora no poder. Corro o risco dessa interpretação, mas quem fizer o favor de acompanhar este raciocínio verá que a minha última preocupação é com o partido que está no poleiro ou os que estão a seguir. Vem esta lengalenga a propósito de reclamar eleições por tudo e por nada, mesmo sabendo que, com outras moscas, a coisa continuaria exactamente igual. As pessoas dos partidos que as reclamam apenas pensam nos seus interesses. Que são legítimos. As pessoas dos partidos que não querem ir a eleições, agora, também estão focados apenas nas benesses de quem se senta à mesa do Orçamento de Estado. Não têm patrão, não têm que produzir nada para garantir o sucesso do ‘produto’ que, em última instância, lhes assegura o salário ao final do mês. São uns sortudos. Os cidadãos mandatam um determinado grupo de pessoas para gerirem a coisa pública – é o que generalizamos da palavra ‘eleições’. Os que conseguem esse desiderato acham que são donos da ‘empresa’ – que é o país, a Região Autónoma, o parlamento, a câmara municipal ou até a junta de freguesia. Têm um objectivo: largar o osso apenas em última instância... Quem ficou de fora tem também um único propósito: reaproximar-se outra vez dos centros de decisão. Mesmo que seja necessário reajustar discursos e dizer que ‘sim’ ao que antes dizia ‘não’. E vice-versa. Sem problemas de consciência, como se tem visto. São estes – os do poder e os que o anseiam – que têm estado a definir quando e como se vai a eleições. É a democracia que temos, um sistema imperfeito e viciado, mas que mesmo assim continua a ser o modelo com menos defeitos e o que garante mais direitos a um número maior de pessoas. Um sistema que permite, ainda, que uns tantos nunca queiram acercar-se dos lugares em que é preciso agir, porque lhes basta estarem comodamente, toda uma vida à pala do erário público, a mandar palpites seja sobre a saúde, seja sobre o sexo dos anjos. Mas não deveria ser assim. As pessoas – os contribuintes, os eleitores – é que deveriam decidir quando é que um governante, ou um deputado, ou um autarca, deve interromper o mandato; ou obrigá-lo a cumprir o ‘acordo’ mesmo que, estrategicamente, lhe apeteça ir dar uma volta. É verdade que não temos mecanismos constitucionais para executar o parágrafo anterior. Nem nunca vamos ter, porque isso não interessa aos políticos, a todos eles, em conluio. Se assim não fosse, acham que teríamos os casos aberrantes que temos aqui na nossa Região – só a título de exemplo – com décadas de faz-de-conta, deputados a cuidar dos seus interesses empresariais e outros a ver a bola nos cinco continentes, governantes com erros de palmatória a serem tratados como se fossem geniais? Contudo, não há que deitar a toalha ao chão. Todo o cidadão tem uma margem de manobra, por mais pequena que seja, que deveria usar. Até aqui na Madeira! Exemplos: não bater palmas quando não houver razão para isso. Não prestar vassalagem por tudo e por nada. Questionar. Exigir. Dar uma de patrão? Porque não? Não somos nós que lhes ‘pagamos’ as mordomias? Porque não começamos já?