Bem sei que vou uma vez mais dar a estes caracteres outra utilização que não a que era suposto mas, como ninguém os lê, permitir-me-ei fazê-lo certo de que ninguém disso dará conta. Ouvir a quem conduz (ou conduzia; ou vai conduzir outra vez, já não sei) os destinos do nosso país, passados dois anos de exercício de poder, afirmar que considerava a Reforma do Estado um assunto secundário, isto depois do aumento brutal de impostos a que nós todos, contribuintes individuais e colectivos fomos sujeitos para continuar a alimentar o monstro, chega a ser ultrajante. Deve excluir-se deste grupo de indignados os que, apesar da constante contestação, porque não declaram o que usufruem, não descontam nada. E não estou a pensar somente nesses diabos desses empresários exploradores mas igualmente nos milhares de empregados que acumulam receitas extra por via de trabalho não declarado (a pedido dos próprios) com subsídios e rendimentos afins. A dita Reforma deixou de ser um problema de coragem para passar a ser uma absoluta necessidade e tenho pena que as várias consciências corporativas disso não se tenham ainda dado conta. Dou o exemplo recente dos professores, que se vangloriam por uma suposta vitória, por via do recuo do Sr. Ministro, que colectivamente vamos todos ter que pagar. Podíamos substituir a palavra “professor” por uma quantidade de outras categorias profissionais dado que, sempre que se tenta tocar em supostos direitos adquiridos seja de que classe for, levantam-se aos berros a reclamar. E fazem-no ao mesmo tempo que gritam contra o tal brutal aumento de impostos. Tenho imensa pena que gente tão capaz não pare para pensar que estamos perante uma situação que, sem dor ou sacrifício, não conseguiremos ultrapassar e que foram quase 40 anos de necessidade de discursar para ganhar votos que nos conduziram a este triste epílogo. Gostava de deixar claro, para terminar, que não entendo a Reforma do Estado como um conjunto de cortes que permitem poupanças mas sim como a maneira correcta de dar a esta entidade, cujas funções devem ser redefinidas sem constrangimentos ideológicos datados, os caminhos, meios e objectivos que a façam ser eficiente e verdadeira promotora de uma lógica de sociedade diferente.
André Barreto Gestor