Madeira Madeira. Boa gente. O charme da baía do Funchal em noite de lua grande e cheia. Com fogos-de-artifício. Conversa amiga. A Macaronésia. O Mar. As nossas cruzadas e complementares dimensões marítimas. A CPLP. A lusofonia caldeada de Mar - marítima, marinha, oceânica. Quem sentiu mar, perguntaria Arménio Vieira, Aqui, da quilha e da vigília da ilha, ressoa...ou Pessoa em como «tudo vale a pena». Flores. Muitas flores nas ruelas desta cidade. Gentílicos parecidos Sempre que vou aos Açores e à Madeira, para além da geofísica semelhante, me encanta a convergência identitária que nos é de apanágio. A fauna e a flora, tanto a endógena, como a exógena, trazidas pelos aventureiros de muitos mares. E a antropologia montada e caldeada pela aventura dos nautas, numa de germinar a globalização que, nas suas dores de não negar, nem de se esquecer, deu mundos ao Mundo. Gentílicos irmanados até pela familiar toponímia. Somos, sim, da Macaronésia – digo, da longínqua, já esbatida na lenda, das Hespérides (tão exultadas por José Lopes e por Pedro Cardoso) e da tardia, das Afortunadas (não menos repetidas por navegantes e/ou cronistas) – arquipélagos de rendilhas, em vulcânica cordilheira, ó idealizada Atlântida de Platão! Vejo por estes patamares, seus ditos e não ditos, e me revejo também nisso. Sem máscaras… Pelos acordares O Brasil acordou, dizem alguns. Em verdade, o Brasil acordou há muito. Por tê-lo feito, sai agora às ruas a exigir direitos públicos e sociais que um País, de tal magnitude e dinâmica económica, não pode furtar de dar aos cidadãos. Naturalmente que, vendo assim de longe, pelas viciosas reportagens dos media dominantes, teremos de fazer certos descontos para uma percepção mais afinada e correcta. O povo nas ruas é importante, pois a constitucionalidade democrática permite não só a indignação, mas, in extremis, a insurgência. Exigir melhor rendimento, habitação, transporte, assistência médica e medicamentosa, segurança e tranquilidade, reduzindo a desigualdade gritante e alguma pobreza quase pornográfica, é legítima e compreensível a todos os homens de boa vontade, sejam eles desta ou daquela ideologia. Em boa verdade, para mim, leitor de Frei Betto e Leonardo Boff, as bem-aventuranças de Cristo são de longe mais modernas e progressistas que a móia da esquerda e da direita. Bem lá no fundo, o povão, apesar do desprezo de certas elites (das consolidadas às recém chegadas), está resoluto na conquista definitiva do pão e da palavra. Deploramos os actos de violência (e de todos os lados que aconteça), pois ela instiga e induz a mais violência e, desde Gandhi, reafirmados por Martin Luther King Jr. e Nelson Mandela, que se aprendeu a força inexorável do pacifismo. Quanto aos ansiosos locais, é preciso que as populações cabo-verdianas, em decisão amadurecida e não induzida, demandem e exijam, mais do que isso, conquistem novas esferas democráticas, sociais e individuais. Sem o princípio determinista da causalidade linear. Nem a mania de pensar que Cabo Verde não acordou. Fê-lo. Recursivamente. Há 38 anos. Com a soberania. E fazendo bonito. Há 23 anos. Com a democracia. E ficando firme. Agora como nunca. Fá-lo-á. Recursivamente. Com o desenvolvimento…

* Filósofo e escritor, conselheiro do Primeiro Ministro de Cabo Verde

Filinto Elísio *