
Quando pensava que as coisas não poderiam piorar, sou forçado a abandonar por momentos a fralda suja da minha filhota para me dedicar a uma matéria ainda menos agradável. Refiro-me em particular a uma obsessão das cúpulas das várias forças políticas portuguesas, traduzida na insistência com que, ciclicamente, exigem a demissão de governantes, e em última análise, de todo o governo.
Infelizmente, muitas fazem-no não a pensar no futuro do País e da população, mas porque pelam-se pelo poder. Pior. Fazem-no sabendo que, em última análise, chegando ao topo, pouco ou nada vão mudar de estrutural, pelo contrário, têm a perfeita consciência da rigidez das suas estruturas internas. Aliás, hoje há milhares de pessoas cujas carreiras no sector público dependem das suas posições nos partidos, sobretudo no PSD e PS, algo que acaba por ser um factor de obstáculo a qualquer reforma da vida política portuguesa, logo, do próprio Estado.
Por via disso, hoje vive-se, em Portugal, um dos momentos mais críticos da democracia. Do Governo aos dois partidos que o suportam, passando pela oposição, sem esquecer o poder económico e o judicial, até às corporações e aos sindicatos, parece ser evidente que há demasiados protagonistas a jogar com a sua influência dentro de um sistema que continua a obliterar os mais fracos e a conceder privilégios aos diversos donos do tabuleiro.
Os mais recentes episódios mediáticos em Portugal são disso exemplo: num momento em que se exigia nobreza e acções concretas para fazer face ao sofrimento de milhares de famílias que enfrentam desemprego e passam fome, os partidos, da direita à esquerda, não conseguem deixar de expor os seus cálculos pequeninos. E cada um, à sua escala e com a sua esperteza saloia ofende as vítimas: nós, os portugueses.
Por isso, por estes dias, tenho feito um esforço, tal como muitas outras pessoas, para não ser enganado, não só pelas técnicas de falsidade do Governo - “ajustamento” é, para todos os efeitos, “empobrecimento”, e “requalificação” é, digam o que disserem, “despedimento” – mas também tenho procurado ver para além do perigoso populismo demagógico da oposição, ou seja, prometam o que quiserem, mas é sabido que tão cedo não haverá alívio da carga fiscal, nem haverá criação instantânea de milhares de empregos.
Desengane-se pois quem é levado a achar, através dos ‘media’ e dos ‘soundbytes’ que ficam das ruidosas intervenções políticas que tudo isto é um jogo do tipo “quem ganha e quem perde”. Não, infelizmente isto não é um jogo, isto é bem mais sério, isto é a nossa vida. E há acções e omissões que aleijam. É preciso não aceitar nem acreditar em tudo o que ouve. Os cidadãos estão a dar como válidas declarações e verdades que não passam de meras artimanhas partidárias. É preciso ser céptico. E isto também é válido para as estruturas regionais dos partidos que apressadamente elogiaram ou criticaram esta ou aquela postura.
Por isso digo e repito: a indignação e a luta pela decência na vida pública levadas a cabo por forças da sociedade civil e movimentos de cidadãos são bem mais importantes do que as lamentáveis atitudes demonstradas pelos vários actores políticos: uns porque demitem-se de responsabilidades, outros porque demitem-se para pressionar e ganhar mais ‘peso’, outros porque pedem demissões sem calcular os custos para os portugueses.
Entretanto, há quem faça apelos ao Presidente da República. Da minha parte, nada espero de Cavaco Silva. Sempre desconfiei de gente que chora quando está a condecorar gente da bola, mas não é capaz de derramar nem uma lagrimazita quando vê dez milhões de almas - desculpem, nove milhões noveventos e tal mil pessoas - a serem esmifradas por políticas orçamentalistas de dois homens como Passos Coelho e Paulo Portas. E por falar no líder do CDS-PP, quase que aposto que não vai haver congresso nos próximos dias. Tal como Cavaco, Portas também tem um enorme instinto de sobrevivência, e mesmo que Passos consiga apelar à oposição interna de Portas, ‘Paulinho’ vai continuar a ser o líder dos populares e terá sempre de passar por ele a estabilidade governativa. Nem que seja por trás do pano.
Temo é que, infelizmente, este processo tenha entrado em roda livre e, embora não seja adepto de nenhuma teoria da conspiração, estou seguro de uma teoria ainda mais perigosa: a do caos, algo que interessa a quem está no poder e a quem já cheira a poder.
PS: pedir a demissão de um governante - ou até mesmo de um governo inteiro - tem tantos resultados como naqueles filmes de polícias e ladrões, em que os tipos fardados estão atrás de um bandido e gritam: “Pára e larga a pistola”. Ora, como se sabe, nem “falando de rijo”, como se diz na Madeira, é suficiente para convencer os maus da fita a desistirem das suas intenções. Ao invés disso, tenho uma sugestão: castiguem-nos de outra forma, obrigando-os a trabalhar como deve ser e a enfrentar as consequências dos seus actos, não os deixem demitir-se nem fugir, por exemplo, para Bruxelas. Mesmo que o tipo seja durão.