Portugal está a assistir a mais uma novela mexicana na sua vida política. Vamos por partes. O ministro Vítor Gaspar demitiu-se na passada segunda-feira. Lamento. Seria melhor e mais justo que tivesse sido demitido. Já escrevi muitas vezes, e desde há muito tempo, que Vítor Gaspar era um péssimo ministro. Optou sempre pelo pior caminho e também pelo mais fácil: “aumento enorme” da carga fiscal contra as empresas e os trabalhadores, cortes tímidos no monstro Estado e uma enorme subserviência à troika (também ela incompetente). O resultado está à vista. Portugal continua falido e pior do que estava há dois anos. Quem diz o contrário está a mentir. Assim a demissão de Vítor Gaspar foi a melhor oportunidade que o governo teve para mudar de rumo. No entanto o primeiro-ministro decidiu convidar Maria Luís Albuquerque para substituir Vítor Gaspar. O sinal era claro: a política continuaria a ser a mesma. Naturalmente uma péssima opção. Pior mesmo é verificar que a Secretária de Estado, agora ministra (pelo menos à hora que escrevo o artigo) está coberta de polémicas devido às famosas swaps. Ou seja, o primeiro-ministro escolhe para a pasta das finanças uma mulher que pesava no governo, devido à polémica. Em vez de ter sido colocada fora foi promovida. Penso que não serão necessários mais comentários sobre a escolha. No entanto deixo algumas considerações: não teria sido mais inteligente o primeiro-ministro ter aproveitado a saída de Gaspar para fazer uma enorme inflexão no governo e nas políticas do governo? Por exemplo convidando Paulo Macedo para ministro de estado e das Finanças? Paulo Portas passar, por exemplo, a ter uma pasta que o obrigasse a estar concentrado apenas (o que já é muito) no País e não no País e no estrangeiro? Alterar a estrutura do governo: o governo não é eficiente porque foi reduzido (por puro populismo) a um número de ministros mínimo que, naturalmente, não tem condições de funcionar bem. Estas são algumas sugestões que já não servem para nada. O segundo episódio desta telenovela foi a demissão de Paulo Portas. Aqui está um caso mais do que previsível. Paulo Portas, inteligente como é, já tinha percebido, há muito, que este governo dificilmente iria longe. Percebeu que o governo era como um carro a alta velocidade de frente para uma parede. Portas, que tem um apurado sentido de sobrevivência, há muito que percebeu que tinha de abandonar o carro na primeira oportunidade senão ia de frente à parede. Juntamente com o governo. Pergunto: alguém pode ser condenado por querer abandonar um mau governo? Por querer abandonar um governo no qual já não acredita? A única critica que porventura se poderá fazer a Paulo Portas - e que é muito grave! - mas que é necessário apurar a veracidade, é se ele Paulo Portas foi desleal com o primeiro-ministro. Não desleal em se demitir, mas se antes de apresentar a demissão apresentou uma alternativa ao rumo do governo. Se optou logo pela demissão sem tentar uma inflexão no governo, procedeu mal. Muito mal. Perante todos estes factos coloca-se a grande questão: “e agora?”. Penso que só há uma coisa a fazer. Dar novamente a palavra aos portugueses. Um remendo nesta coligação já não é suficiente. Manter a coligação sem o líder do PP dentro do governo (que parece ser uma hipótese) é uma perfeita loucura. Mais cedo ou mais tarde vai, naturalmente, acabar mal. Pois, então, é melhor que acabe já. A falta de Coerência do PP Os populares têm por vezes tomado partido por medidas diferentes daquelas que o PSD defende no governo e no Parlamento. Ainda bem. Essa aliás é a mais valia de uma coligação: dois partidos que não pensam exatamente o mesmo. A deceção com os populares é no entanto justificada. Na semana passada, por iniciativa do PS, houve a hipótese do Parlamento por um ponto final ao crime cometido contra os restaurantes que foi aumentar para a taxa máxima do IVA os produtos vendidos nos restaurantes. Os resultados desta medida da responsabilidade de Vítor Gaspar foram dezenas de milhar de desempregados; dezenas de milhar de falências e a mesma receita fiscal. Um verdadeiro desastre! O PP sempre demonstrou ser contra. No entanto na hora da verdade – a semana passada na Assembleia da República – votou pela manutenção do IVA que tem morto a restauração em Portugal. Uma deceção. Mário Soares e a sua esquerda Mário Soares fez-se convidado e esteve uma hora com a Presidente Dilma Russef do Brasil, aquando da sua recente visita a Lisboa. No final do encontro disse o que já nos habituou na sua longa vida política: que é muito amigo da Presidente (será?) e que com ela comunga das ideias da esquerda. Acrescentou que Dilma e o seu governo são exemplos a seguir. É a esquerda no seu melhor. Uma declaração de pouco conteúdo prático mas mais uma farpa obsessiva contra o governo do PSD. Mal sabia Soares – e Dilma também – que mal a Presidente regressasse ao Brasil a revolução saia às ruas. Contra o socialismo de Dilma. Pena ainda não termos ouvido, entretanto, um comentário de Mário Soares ao “sucesso” e “exemplo da esquerda brasileira”.
Paulo Neves