O planalto já não aguenta a futilidade daqueles discursos guturais gastos que gastam a paciência do povo. Até a pobre Achada Grande é eliminada do mapa para surgir no lugar uma tal de Herdade Chão da Lagoa. Tanta é a água que ali corre naquelas sessões exotéricas. Tanta é a lama produzida para abafar a mentira, a omissão, a imoralidade e o desgoverno, empurrando a enxurrada e a contrição para Lisboa, essa fonte inesgotável de todos os pecados que por cá se cometem. Tanta é a saliva cuspida por ódios de estimação pré-históricos que lançam atestados de menoridade que ofendem a inteligência, a consciência individual e a memória dos madeirenses. É preciso um chão da lagoa, ali mesmo, para absorver as lavagens cerebrais colectivas, ensaboadas de ignorância vil e perfumadas com a fragância de palavras embriagadas, pulverizadas com uma leviandade saída da sombra da impunidade mas que cultiva sobre as cabeças de um rebanho inútil o medo de pensar.

A Achada Grande era suposta ser de todos. Desapareceu, entupida por um aterro gigante feito herdade. Como a verdade na política. É chão que já não dá frutos por mais água que se meta. A história é um pouco como a Autonomia que era de todos e hoje morreu na mordaça de um partido. A paisagem é enublada por um nevoeiro denso. Do negócio, conhece-se muito pouco, além daquele milhão de euros que não era suposto ninguém saber que a Fundação Social Democrata recebeu de fora para, alegadamente, reflorestar. Para reflorestar mais um pouco de paisagem com propaganda obstinada. Quanto pagou à Região a fundação por cada metro quadrado de cada hectare? É mais um mistério a que se juntam outros, conjugados numa teia de influências onde reinam os conflitos de interesses. É mais uma questão respondida com uma interrogação: Porque estão as incompatibilidades empatadas há 20 anos à porta da Assembleia Legislativa da Madeira? Porque podem os governantes da Madeira acumular reforma e salário na política? Que especificidade regional justifica esta imoral excepcionalidade nacional? E porque temem sair?

Prefere-se falar em milagre. Do que era aquilo antes e do que é agora. Como tudo o resto quando não se vislumbra um pingo de moralidade, de racionalidade e lucidez. Descobre-se o conluio e favorecimento a roçar a ilegalidade. Porque foram proibidas operações de fiscalização do trânsito nas artérias contíguas à festa do PSD-M? E a que se presta uma instituição com a responsabilidade da PSP que deveria pautar a sua acção de salvaguarda da legalidade democrática por critérios de igualdade ao invés desta execrável subjugação aos caprichos do partido poder? Até dá arrepios pensar o que está por detrás desta promiscuidade. É como tudo aquilo que a vista não alcança por detrás de um portão trancado a cadeado onde “só entra quem é convidado”, conforme fez questão de atirar o deputado imune, o empresário compatível, o secretário-geral do partido e ainda o presidente de uma associação sectorial que representa as empresas e os negócios particulares do semi-governante. Do dono de muito mais. Menos da verdade. Daquela porta para dentro não está nenhum paraíso prometido, mas um produto de ficção. Uma fábrica de ilusões que engorda, há mais de 30 anos, o seu circo político viciado no poder.