Isto de fazer de advogado do diabo é sempre contraproducente e arriscado, mas confesso que, à medida que se sabem mais pormenores sobre o descarrilamento do comboio de Santiago de Compostela, não consigo deixar de sentir uma profunda tristeza por Francisco José Garzón, o maquinista de 52 anos que, supostamente, é responsável pela tragédia que provocou 79 mortos. E o meu pesar nada tem a ver com julgar que o homem é inocente ou uma vítima do sistema ou coisa parecida, mas por acreditar, piamente, que neste momento não haverá alma mais penada do que a dele perante o que fez. Garzón, disseram os seus colegas à imprensa espanhola, era um homem normal, responsável e, ironia das ironias, conhecido por circular devagar nos carris que fazem a ligação de Madrid à Corunha e que percorria desde 2000. Multiplicam-se as investigações e todas parecem apontar para um fenómeno a que a ciência ainda não deu um nome pomposo, mas que é tão velho como o norte – a hora de louco. Isso mesmo: Garzón, inexplicavelmente, fez o inconcebível e, em vez de dar uma curva a 80 km/hora, deu-a a 190 e não travou a tempo. Pagou caro por isso. Ele, os 79 mortos que até agora provocou e as respetivas famílias.
Acusar-me-ão de ser simplista e de estar a esquecer as vítimas da “imprudência”, como o próprio definiu o seu ato, do maquinista espanhol. Nada disso. Apenas imagino o sentimento de culpa que o corrói e que não mais o deixará dormir em paz. Porque a nossa consciência é o nosso pior e mais severo juiz. Não há dedo apontado nem insulto nem crítica que nos esmague mais. Por muitas voltas que dê, não consigo deixar de sentir pena dele. Porque, verdade seja dita, não há dúvidas de que a hora de louco nos apanha a todos. Alguns têm a sorte de vivê-la sem provocar danos de maior; outros, como Garzón, chegam a mudar o rumo da História e/ou a sua própria história e a de terceiros; outros ainda fazem dela, da hora de louco, a sua última hora, lançando-se no vazio sem retorno. Lembro-me, por exemplo, do dia em que me pendurei da varanda de casa para cortar uma corriola e parti o nariz, mas podia ter morrido; de um dos meus melhores amigos, pacífico por sinal, ter arremessado o seu primeiro – e de certeza último – murro violento num colega deixando-o quase em coma porque, num dia não, lhe disse uma piada de mau gosto; do acidente de viação por excesso de velocidade que ainda este ano vitimou todos os passageiros à entrada do túnel dos Viveiros; dos homens encontrados mortos na ponte do Ribeiro Seco na semana passada… Enfim, horas de louco que, como horas de louco que são, não são premeditadas, não medem consequências. Nos apanham desprevenidos e nos levam a cometer loucuras que nos podem tramar para sempre. A nós e aos outros.
Ser em permanente construção, cuja existência precede a sua essência, como o definiu o existencialismo de Jean-Paul Sartre, o homem nunca se conhece inteiramente. É o mundo que o constrói, tornando-o capaz de tudo em situações limite. E não só. Torna-o único responsável pelas suas ações, imputando-lhe como primeiro crime o de ter nascido. Não admira, assim, que o peso que carrega nos ombros lhe seja, por vezes, excessivamente pesado. A hora de louco é talvez o escape, a tentação inconsciente e malévola de superar-se a si próprio num mundo que exige tudo e dá muito pouco.
Por isso, indigno-me com a arrogância daqueles que se julgam imunes à hora de louco, atirando a primeira pedra como se houvesse telhados inquebráveis. Parolos ingénuos que, mais cedo ou mais tarde, serão apanhados pela lei da vida. Nesse momento, talvez sintam que, embora não fizessem a asneira por mal, o mundo lá fora não se compadece com isso. E cobrará tributo, tornando-os os maus da fita. Sem direito à defesa. Porque a hora de louco é só isso mesmo, a hora de louco.
Eker Sommer