
Quando o único ministro que governa Portugal e o chefe da coligação dispensam a governação e batem com a porta, ninguém tem dúvidas acerca da longevidade deste elenco que Pedro Passos Coelho insiste em manter no poder, com frases de ocasião, reservadas no fundo do bolso para empregar no momento do canto do cisne: “Comigo, o país não escolherá o colapso político e económico”, referiu ontem à noite, perante o meteórico desmoronamento governativo.
Ao ficar, o primeiro-ministro não resolve absolutamente nada. Limitou-se a adiar o inevitável aviar de malas, desdobrando-se em explicações para não aceitar a demissão de Paulo Portas e manter a coligação, recorrendo a um reportório de eufemismos que já não cabem nesta Finisterra. Tudo para dizer que neste cemitério governamental “o país está primeiro”. Pois está. E está também primeiro do que a obstinação do primeiro-ministro em desgovernar.
Depois de ter falido os portugueses, Passos Coelho comete a proeza de esvaziar a confiança e a réstia de credibilidade do Governo e de hipotecar o futuro de Portugal, assumindo o papel de produtor e de actor principal de uma novela à portuguesa emitida em horário nobre e que tem um pouco de tudo: bizarra, caricata, melodramática e de sentido único. Uma novela que mais parece cinema mudo, tais são as evidências na falha de diálogo e de comunicação entre os parceiros de governo e as insituições.
Esta crise política que mais tarde ou mais cedo conduzirá o país para eleições antecipadas, custando-nos dois anos de sacrifícios, não surge por acaso. Pedro Passos Coelho diz que não se assusta, mas dá para ficar aterrorizado pensar, por exemplo, que a ex-directora da REFER, a empresa pública que gere as infra-estruturas ferroviárias e uma das mais contribuíram para a dívida que estamos a pagar, esteve dois anos a olhar pelo Tesouro do Estado. E assusta, sim senhor, saber que Maria Luís Albuquerque, a “senhora Swap”, acaba de ser uma escolha imposta no seio do governo de coligação para suceder a Vítor Gaspar e executar a aparentemente inexequível reforma do Estado.
Pedro parece que continua obstinado em brincar ao país do faz-de-conta. Vai a Berlim receber umas palmadinhas nas costas e na mala de viagem traz umas palmadas à carteira dos portugueses. Até quando vamos fingir que a dívida pública será resolvida com um novo bombardeamento fiscal recheado de excepções que mantêm regalias principescas para uma minoria privilegiada, enquanto nos resignamos ao esfacelamento das famílias, dos trabalhadores, das empresas e da economia portuguesa? Como se as danças ministeriais trouxessem uma bússola ao governo. E como se uma nova vaga de austeridade à conta de trocas de cadeiras na Administração Pública e no sector empresarial do Estado não nos custasse mais de mil milhões em pagamentos de Swaps aos bancos. Se é para isto que estamos a ser espremidos, Pedro que fique por lá em Berlim a receber palmadinhas dos seus congéneres e a pedir socorro aos lobos da Baviera. Havemos de encontrar por cá alguém que não governe assustado.